VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

OPINIÃO | CARLOS FIGUEIRA

A semana e particularmente o domingo foram dominadas, como era de todo esperado, pelas eleições autárquicas que mobilizaram milhares de candidatos em todo o País. O dia seguinte é tempo para curar ressacas e olhar em frente sem cair em simplismos de análise votadas a aligeirar causas e consequências quer nas vitórias quer quanto às derrotas.

Sendo eleições locais para eleger órgãos próximos das populações tenderíamos a concluir que factores políticos mais gerais em nada ou em pouco interviriam nas opções de voto de cada eleitor. Mas, a meu ver, desde há muito que o ambiente político que se vive no momento no País, intervém também nas escolhas das opções de voto e nesse sentido o PS saiu claramente favorecido. Ou seja para além dos valores das equipas apresentadas dos programas e da gestão realizada o ambiente políticos que se respira no País em torno do actual governo também ajudou embora, sublinho, não tenha sido determinante.

Num breve e extemporâneo balanço aos resultados diria em primeiro lugar que o grande vencedor é de facto o PS, o PSD como inegavelmente o grande derrotado, mas existem derrotas à esquerda que igualmente têm de ser sublinhadas. A CDU perde grandes e expressivos bastiões como Barreiro ou Almada, no Alentejo não se sai melhor com perdas em Beja, Castro Verde, Alandroal, de entre outras, perdas que na sua totalidade representam nove ou dez municípios. É muito para ser aligeirado. O Bloco que não tinha e continua a não ter expressão autárquica não alcança qualquer dos objectivos a que se tinha proposto, a saber, a conquista de uma câmara e o impedimento ao reforço de maiorias. No CDS/PP vale o resultado obtido em Lisboa criado em torno da demagogia e do populismo vendidos pela generalidade da comunicação social, porque se assim não tivesse acontecido situar-se-ia em termos de objectivos e valores alcançados a par com o seu parceiro do PSD.

No Algarve cumpre destacar que tudo ficou na margem do previsto. O PS continua a deter a maioria de 10 das dezasseis Câmaras, o PSD sozinho ou em coligação com cinco e a CDU a aguentar a maioria em Silves. Há todavia que assinalar que o PS obtém em Faro um excelente resultado ficando a poucas dezenas de votos de conquistar a Câmara ao PSD e que na maior parte das situações existiu um claro reforço da maioria que governava a autarquia.

Ainda quanto a balanços não acompanho a ideia que de tais resultados muito favoráveis ao PS coloquem em causa a chamada “geringonça” nem tampouco, como alguns comentaristas mais apressados, eventualmente confundindo vontades com realidades, avancem já com a ideia que sempre que existem acordos da esquerda com o PS é sempre este partido a tirar vantagem de tal situação. Vejamos que tal não se verificou em Loures, nem em Setúbal, nem em Palmela nem em Évora, nem aqui próximo de nós em Silves, de entre outros exemplos.

Destes resultados a esquerda, e em particular o PCP, tem de aprofundar a análise quanto a trabalho realizado, proximidade com as populações, abertura à sociedade, renovação de equipas, maior proximidade com gente jovem.

Porque a meu ver não se podem confundir dois planos de análise no que toca ao local com o interesse nacional em torno de acordos ou plataformas políticas que permitam não só barrar o caminho à direita como prosseguir uma política de recuperação de direitos sociais, de modernização do País, de incremento da economia única forma de garantir postos de trabalho estáveis e com direitos reconhecidos. Que o estado de prostração, deriva e incerteza em que a direita se encontra não contagia a esquerda no seu conjunto.

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Carlos Figueira

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