SMS: Dizem-me mas não deve ser verdade

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

1. Turismo. Dizem-me que metade das receitas do turismo do País é obtida no Algarve. Não acredito porque se fosse verdade haveria algum retorno minimamente proporcional com investimento público na região. O Estado tem razão: ganha pouco aqui, pelo que investe muito noutros lados. Chama-se a isto “regionalização”.

2. Tavira. Dizem-me que há nesta cidade. Além do mais, a mais portentosa coleção de igrejas pelo que até o diabo foge do rio Gilão. E mesmo Deus não acredita ao não levar até lá comboios em linha eletrificada, quanto mais por via dupla, não venha o diabo tecê-las.

3. Escrita do Sudoeste. Também dizem José Rosa Madeira, por sinal avô do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, foi o primeiro a descobrir umas pedras no Ameixial com a escrita alfabética mais antiga da Europa. Mas quem acredita nisto se a norte do Caldeirão se garante que o Algarve não tem mais nada a não ser praias?

4. Pentateuco. Igualmente corre o boato que o primeiro livro impresso em Portugal foi na tipografia de Samuel Gacon, em Faro. Boato que chegou aos ouvidos de um corsário inglês, o primeiro perito em fazer Brexit, que o roubou juntamente com a falsamente famosa Biblioteca do Bispado, hoje o principal acervo do bibliteca humanista de Oxford. Se fosse verdade o Algarve já se tinha levantado em peso reclamando a devolução do roubo.

5. Sagres. Outra mentira. Jamais foi símbolo da zona de arranque dos Descobrimentos e das navegações atlânticas pelo que é criancice pedir-se-lhe a classificação como Património da Humanidade. Património é um chocalho, o barro preto, as levadas – diria Estrabão que foi o primeiro mentiroso.

6. Museu de Faro. Outra mentira. Toda a gente do Norte, a começar pelos visitantes de Serralves, sabe que o “Mosaico do Oceano”, século III, que está classificado como Tesouro Nacional é um embuste e não justifica ir a Faro. E que “O Menino entre os Doutores”, de Marcelo Leopardi, finais do século XVIII, é apenas um quadro apócrifo encomendado pelo Turismo de Portugal para que o Algarve, coitado, tivesse alguma “cultura”.

7. Caíques. O barco algarvio precursor das caravelas? Outra grande falsidade, tanto que a verdade desapareceu. Precursor disso foi o barco rabelo.

8. Chaminés. Qual quê! Vestígio da arquitetura romana típica da ainda persistente casa rural algarvia? Então tudo o que há no Algarve não foi feito por árabes e apenas pelos árabes? Como é que o meu coração podia ser mais romano que árabe, muito embora seja também grego e fenício?

9. Atas Medievais de Loulé. Dizem que estão conservadas em Loulé as atas medievais municipais, produzidas entre 1384 e 1488, e que serão as mais antigas conhecidas do País. É uma grande falsidade! Como é que o Algarve pode ter História se foi inventado depois do Alqueva?

10. Vinhos. Com o Tratado de Methuen, o acordo comercial celebrado entre Inglaterra e Portugal no ano de 1703, que deu o monopólio dos vinhos aos britânicos, procedeu-se ao arranque das vinhas do Algarve para não concorrer com as do Douro. Hoje, lentamente, já fora desse quadro, uns ousados no Algarve começam a produzir vinhos considerados dos melhores. Quem acredita nisso, a começar pelas mesas dos hotéis?

E há mais 4.567 mentiras. Uma lista interminável.

Flagrante premonição: D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, foi o sétimo bispo a presidir às Festividades da Mãe Soberana nos últimos 100 anos. Lá no alto do monte, foi um grande e sentido discurso, sem brocados nem dourados, dirigido a corações crentes, descrentes ou que batem na inquietação da dúvida. Posto isto e dada a prova, chega a Cardeal de Lisboa.

Carlos Albino

 

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