Polémica sobre o petróleo “é tendenciosa e alarmista”

Manuel Vieira, Heloísa Apolónia, Paulo Sá, João Vasconcelos, Luís Graça e Tomasz Boski (no uso da palavra)

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Tomasz Boski, especialista em Geologia, foi um dos convidados do encontro que reuniu tembém deputados e ativistas em Vila Real de Santo António. Socialistas querem conhecer os recursos, mas partidos mais à esquerda defendem o fim dos contratos de prospeção

DOMINGOS VIEGAS

Tomasz Boski, catedrático da Universidade do Algarve e especialista em Geologia, considera que a polémica que se instalou em torno da prospeção, e da hipotética exploração, de petróleo e gás no Algarve esteve sempre “intoxicada”, já que tem sido “tendenciosa e alarmista” e “pouco baseada em fundamentos científicos”.

O especialista, que foi um dos convidados do debate sobre aquela temática realizado esta segunda-feira na Escola Secundária de Vila Real de Santo António, no âmbito do projeto Eco-escolas, explicou como se formam os hidrocarbonetos no subsolo e falou da sua experiência em zonas de exploração petrolífera.

“Em dez anos de visitas de campo a zonas de exploração no nordeste brasileiro nunca sujei os pés com petróleo. E em 35 anos nunca houve qualquer acidente. Isto não significa que os acidentes não possam acontecer, mas os mecanismos de prevenção e de segurança também são cada vez maiores”, relatou, defendendo ainda que “a exploração de gás pode não ser incompatível com o turismo”.

Tomasz Boski lembrou que “é difícil” substituir os hidrocarbonetos devido “à dependência criada ao longo dos anos” e que esta é uma atividade “que gera muito dinheiro”. Porém, e “uma vez que tem consequências ambientais, deve fazer-se tudo para diminuir essa dependência e o valor que se obtém atualmente com os hidrocarbonetos deve ser investido noutras formas alternativas de energia”, defendeu.

Antes, Tomasz Boski tinha aberto o ciclo de intervenções com uma questão que, no mínimo, terá deixado a plateia a pensar naquilo que é dia a dia de todos nós: “Será que quando pegamos no nosso automóvel diariamente também nos envergonhamos tanto como quando vê-mos fotografias de acidentes ambientais com crude?”.

Luís Graça: “Governo quer garantir transparência e rigor”

A série de intervenções políticas começou com o deputado socialista Luís Graça, eleito pelo Algarve, garantindo que o Governo está a trabalhar para “assegurar a transparência e o rigor ambiental” no processo relativo aos contratos de prospeção.

“O PS está a trabalhar para a criação de um documento único que garanta a transparência e o rigor ambiental e também de uma comissão independente e científica. Isto vai ser cumprido, porque é fundamental que os cidadãos estejam informados”, assegurou.

Luís Graça explicou que, como algarvio, não lhe agrada a possibilidade da exploração de petróleo avançar na região, mas também defendeu que é importante conhecer os nossos recursos. “É como deixarem-nos uma herança de livros e não querermos saber que livros são. Vamos saber o que existe e depois veremos o que fazer”, considerou.

João Vasconcelos: “Somos frontalmente contra a exploração de hidrocarbonetos”

Mas se os dois primeiros oradores tiveram um discurso, de certa forma, no sentido de colocar alguma água na fervura em relação à polémica que tem sido levantada no Algarve, o mesmo já não se pode dizer das intervenções dos deputados João Vasconcelos (Bloco de Esquerda) e Paulo Sá (PCP), também eleitos pelo Algarve, e Heloísa Apolónia (Os Verdes).

“Somos intransigentemente radicais nesta matéria. Somos frontalmente contra a exploração de hidrocarbonetos. O benefício em termos económicos, para o país, é ridículo e os riscos são muito grandes. O Algarve está numa zona sísmica e um terramoto ou um tsunami numa zona de exploração de hidrocarbonetos teria consequências catastróficas a duplicar”, alertou João Vasconcelos.

Paulo Sá: “Precisamos de estudos credíveis e não de palpites”

Por seu turno, Paulo Sá defendeu que o Governo “não deve avançar com sondagens de pesquisa sem a realização de estudos de impacto ambiental”. O deputado comunista considerou que “ninguém conhece os impactos” porque não há estudos feitos por entidades credíveis: “Precisamos de estudos credíveis e não de opiniões e palpites. É preciso quantificar os riscos, bem como os prejuízos económicos em atividades como o turismo e as pescas”.

Paulo Sá considerou ainda que “não se consegue acabar com a dependência dos hidrocarbonetos de um dia para outro”, mas defendeu que “este é um processo que deve ser acelerado”.

Heloísa Apolónia: “Alguém nos quer fazer passar por parvos”

Na sua intervenção, a deputada ecologista Heloísa Apolónia pegou na ideia de que “apenas se pretende conhecer os nossos recurso” para afirmar que “alguém nos quer fazer passar por parvos”. E explicou: “O que é que o Estado vai ganha? Quem vai ganhar são as empresas petrolíferas. Qual é a empresa que gasta dinheiro para descobrir se há recursos e depois abdica da sua exploração?”. Neste sentido, defendeu que “é preciso que o Governo se livre destes contratos”.

Tanto Paulo Sá como Heloísa Apolónia recordaram ainda os projetos que PCP e Os Verdes têm apresentado no Parlamento no sentido de afastar ainda mais da costa portuguesa os corredores de passagem de petroleiros, os quais têm sido rejeitados.

A última intervenção da tarde esteve a cargo de Manuel Vieira, da Plataforma Algarve Livre de Petróleo (PALP), que fez uma retrospetiva da atividade daquele movimento. Explicou que esta entidade surgiu quando um grupo de pessoas se apercebeu do que o anterior Governo estava a preparar, sem dar qualquer explicação, bem como das dificuldades sentidas para obter informação sobre os contratos junto da Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis (ENMC).

O deputado Luís Graça lembrou posteriormente que a ENMC “é uma entidade que está em processo de extinção”.

O PSD e o CDS também foram convidados para participar neste debate, mas “nem sequer responderam ao convite”, explicou ao Jornal do Algarve a organização do evento.

(Reportagem publicada na edição impressa do Jornal do Algarve de 09/03/2017)