AVARIAS: A tradição ainda é o que era

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Olho a TV (há um cento de dias que os meus textos começam mais ou menos assim…) e vejo o Inspector Max, Inspetor Max, segundo o AO de noventa, num compacto mais que revisto. Li ou ouvi (ou as duas coisas juntas) que a popular série vai voltar com novo episódios/nova viagem: a isso não será alheia esta fúria transmissora (durante esta tarde de Sábado – quando escrevo – foram três-horas-três, só com descanso para a publicidade). O Inspe(c)tor Max é uma série para crianças que relembra todas as séries (para jovens, adultos e velhos),com polícias e ladrões, de há – diria – trinta anos: argumento simples, maus de um lado e bons do outro, mínima intrusão da técnica e ausência de telemóveis. Penso que a existir e estou a falar de uma putativa nova série, a panóplia tecnológica não deverá estar ausente mas o cão voltará a estar em campo, ladrando, atacando meliantes e resolvendo, no fim, os problemas criados pela incúria policial. Posso dizer que é refrescante quando muita da acção ainda passa pela vida, mesmo que seja a de um cão e o bandido seja encontrado em primeira mão por nós, por ser, de entre os suspeitos o único actor conhecido. Num universo (policial e crime) em que a norma é a criação de argumentos complicadíssimos, cheios de tons cinzentos, bons que até nem são tão bons e supercomputadores que nunca bloqueiam, cai bem (uma vez cada dois anos) olhar as coisas, feitas na altura em que os universos estavam perfeitamente delineados e eram claros: polícias por um lado, ladrões pelo outro.

Tenho que ver com atenção (só vi o terceiro episódio, pelo canto do olho) a reportagem “Assalto ao Castelo”, sobre os dinheiros do Grupo Espírito Santo (SIC). Num país em que os casos de investigação sobre ladroagem de alta finança são escassos, é de louvar todo o trabalho que inclua dar uma certa luz a factos que alguns poderosos querem dar sumiço. Dinheiros para cá a para lá, até se descobrir que desapareceram sem deixar rasto. Esta gente que vive de lavar dinheiro, próprio e alheio (e muitas vezes roubá-lo), com o beneplácito das leis feitas à medida, não sofre, no entanto, as consequências sociais que tocariam a alguém que roubasse um saco de papos-secos (parece que o plural de papo-seco é mesmo papos-secos) num supermercado. Nas próprias investigações (pelo menos no que sai para fora, via televisão ou jornais) não se percebe muito bem se o dinheiro desapareceu, por que foi mal investido, ou se foi roubado tout court. Talvez devido ao peso das pessoas envolvidas, da complexidade das investigações, ou do peso dos advogados das personagens em causa, tudo é tocado só com as pontas, não vão os doutores em causa acordarem do seu merecido repouso. Todos sabemos que em Portugal existe um respeitinho absoluto pela condição social. Um doutor ou um engenheiro nunca são ladrões, apenas pessoas que numa certa fase da vida não estiveram à altura do seu melhor. Mas há, nestes casos mais do que isso; a própria natureza do negócio convida à dúvida: será que é mesmo ladrão? Não se vir de onde veio ou para onde vai o dinheiro, não é exactamente o assalto a uma caixa multibanco com uma garrafa de gás. Os ladrões da alta finança também contam com isto.

Fernando Proença

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