Festival Som Riscado volta a levar propostas inovadoras a Loulé

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Não é todos os dias que encontramos figuras como Tiago Pereira na pausa da manhã, no emblemático Café Calcinha, e – pasme-se – com um ‘balão fone’ na mão. Ou músicos de craveira internacional à conversa num bar em ambiente informal como foi o caso de Rodrigo Leão, ou, ainda, espetáculos únicos e de improvisação, nunca antes estreados em Portugal, a pisar o palco do Cine-Teatro Louletano, tal como sucedeu com o João Paulo Esteves da Silva Trio.

E o que dizer da abordagem tão exploratória e experimental em torno da arte do som de cataplanas que aconteceu com “mEEkAlnUt”, os Caldeireiros de Loulé e o ‘chef’ do restaurante Tertúlia Algarvia? Explorando o processo de confeção e simulando assim a oficina e a cozinha, “mEEkAlnUt” (o produtor musical Miguel Neto) recorreu criativamente à tecnologia para que os sons ganhassem vida própria e pudessem expandir-se, multiplicar-se, desdobrar-se, ecoar… Ficaram na memória auditiva e visual dos espectadores as batidas no cobre, o azeite do refogado a fervilhar, o maçarico a moldá-las pelas mãos do mestre e as amêijoas barulhentas a abrir pela ação do calor.

De todas estas experiências (e muitas, muitas outras) se fez mais uma edição de Som Riscado – o Festival de Música e Imagem de Loulé.

Cinco dias, cinco concertos visuais, na realidade, espetáculos onde a música e a imagem dialogaram da forma mais criativa possível. Às vezes inusitada, às vezes apenas inesperada, porventura algumas vezes propositada, mas nunca óbvia ou previsível.
Dir-se-ia que este foi, em parte, o festival do espanto! Por riscar o som, sim, mas também por arriscar e muito novas abordagens em torno das artes visuais: desenho, fotografia, cinema, arte digital, design.

Ensinar, aprender e refletir com todos os sentidos

E se um atlas é um mapa do mundo e se utópico é sinónimo de algo que queremos muito, que pensar do ateliê frequentado, durante a semana, por cerca de 300 crianças do concelho, que se depararam, nada mais, nada menos, do que que com um Atlas de Instrumentos Utópicos? Isso mesmo! Escovas de piaça, esfregões de cozinha, pauzinhos, pedras, pentes e, todos eles, a produzirem um som, não raras vezes inaudível. Para o escutarem convocaram muitas vezes o silêncio e, aí sim, ele surgiu. Fazendo apelo à visão, à audição, ao olfato, ao tato, todos puderam ver, ouvir, cheirar e tocar nos sons que a associação portuense Sonoscopia preparou numa surpreendente instalação interativa patente ao público no Convento do Espírito Santo.

Utópicos foram também os instrumentos construídos com balões, no domingo, também por sugestão da Sonoscopia. Pais e filhos, amigos, louletanos e visitantes, todos responderam ao apelo e foi mesmo possível, a partir do uso de balões, mas também de rolos de cartão, elásticos, fita cola colorida, mangueiras e rolhas de cortiça, construir tantos instrumentos de sopro e precursão quantos os necessários para montar uma verdadeira orquestra. Os tais Balão Fones que o músico Tiago Pereira, mentor do projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, transportava descontraído na mão no café e pelas ruas da cidade.

Não muito longe, desta feita no CECAL/Casa da Cultura de Loulé, também através do cruzamento do som e da imagem, outras viagens foram proporcionadas quer a crianças quer a adultos. O suspense era grande: entrar numa sala com portas e janelas fechadas, toda escura. Ao centro uma estrutura que os envolvia e, a partir do momento em que o espetador (aqui num papel também bastante ativo) tomava o “comando das operações”, ou seja, a partir do momento em que acionava o joystick situado no centro da sala, os projetores emanam luz e as colunas (ocultas) emitiam som, envolvendo-os numa atmosfera única, misteriosa e invulgar – a atmosfera de “Non Human Device #4”, idealizada por Boris Chimp 504.

Uma cidade à escuta de todos os sons

Loulé foi, de facto, a anfitriã de todos estes autores, participantes, artistas, público curioso, ativo e emancipado. O Cine-Teatro Louletano foi o epicentro do festival, o lugar dos concertos visuais da Nova Orquestra Futurista do Porto (com sessão esgotada), de Rodrigo Leão e o espetáculo intitulado “Os Portugueses” (o primeiro da tournée nacional), de João Paulo Esteves da Silva Trio em improvisações sobre fotografias de Bernardo Sassetti (uma encomenda do festival em estreia absoluta) e dos promissores Triktopus (João Frade, Marco Santos e Diogo Duque) que encerraram a terceira edição.

Loulé e o Som Riscado acolheram cerca de cem músicos e autores, três centenas de crianças e, ainda, uma centena de bebés e seus pais naquela que ficou conhecida como uma iniciativa inédita e muito elogiada: o concerto de música eletrónica para bebés que teve lugar na Escola Secundária de Loulé, dinamizado pelo professor Paulo Lameiro e sua prestigiada Companhia Musicalmente, e que contou com uma convidada muito especial: SURMA.

Já a componente formativa – uma das grandes apostas da programação deste Festival – ficou assegurada, a par da componente reflexiva, pela realização de debates informais e debates temáticos bastante participados com Rodrigo Leão, com a realizadora da série “Portugal, um Retrato Social” Joana Pontes, com Henrique Fernandes do projeto “Phonambient”, com Carlos Norton do projeto “Arquivo Sonoro Paisagístico do Algarve”, com Miriam Tavares e João Paulo Esteves da Silva, entre muitos outros.

A organização garante que em 2019 haverá novo e renovado Som Riscado.

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