SMS: A nova arte rupestre

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

Quem não sabe o que é a Arte Rupestre? A palavra provém do latim rupes, que significa caverna, gruta, rochedo, parede rugosa. Dizer Arte Rupestre é o mesmo que dizer Arte das Cavernas. Toda a gente conhece as imagens das Grutas de Lascaux em França, Altamira na Espanha, e a impressionante Cueva de las Manos, no sul da Argentina. Já para não falar das figuras de Foz Coa, aqui tão perto, aqui tão polémicas. Adiante.

Nesses tempo distantes, homens primitivos de toda a Terra deixaram inscritas nas paredes das cavernas os desenhos dos seus sonhos, medos, esperanças, alegrias, frustrações, temores de que o animal os atacassem, o raio vindo dos céus os fulminasse. E para dizerem que tinham passado por ali, inscreviam a forma das mãos naqueles muros sombrios. Era assim, ainda não tinham descoberto a escrita, um alfabeto, uma forma verbal de se comunicarem. Ainda se cobriam de peles, guinchavam para se entenderem, corriam em tribos pelas planícies. Foi há milénios. Morriam aos vinte anos, aos vinte e cinco eram velhos. Um tempo sem medida nos separa.

Nos dias de hoje, século XXI da era cristã, a nova tecnologia afasta-nos desses tempos de escuridão? Sim, por certo. Hoje, as novas tecnologias permitem-nos ser os mais informados, os mais cultos, os mais cívicos e de todos os tempos, os mais amparados pela Ciência e pela Medicina. Nova pergunta – As novas tecnologias fazem-nos recuar a esses tempos distantes das cavernas? Sim, infelizmente, ainda que de forma disfarçada. Nos últimos tempos, tenho assistido a sessões, debates, lançamentos de livros, encontros de vária natureza. O que sobeja como informação partilhada? Milhares de fotografias. Por vezes sem indicação de local nem data. Sem identificação útil e fundamentada de quem quer que seja. Sem resumo, sem análise, sem narrativa, sem síntese, sem palavras. Isto é, entre a realidade e a representação, o toque numa tecla. Menos esforço mental do que na arte rupestre. Pessoas sérias vêm-nos avisando – Preparam-se dois grupos, um híper-preparado, o outro sub-preparado. O caldo exacto para uma grande bernarda. Lamento que a tecnologia nos leve a colocar de novo as mãos na parede da caverna.

Flagrante barril da coerência: Mero aviso apenas – o petróleo vai queimar muita gente que se julgava ser incombustível mas que, por insignificante preço, já tem as orelhas a arder.

Carlos Albino

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