Educação e cidadania (2)

OPINIÃO | AUGUSTO LOURIDO

Educadores e Professores
A força da razão
Os educadores e professores portugueses estão, uma vez mais, em luta pela EDUCAÇÃO, pois são bastante sérias e muito justas as suas reivindicações profissionais e pessoais.
Muitas delas, aliás, bem antigas:
a) contagem e recuperação, para efeitos de progressão na carreira, dos nove anos, quatro meses e dois dias de serviço prestados, mas congelados;
b) regras específicas de aposentação, que sejam adequadas, condignas e atempadas
c) concursos de colocação e, bem assim, de ocupação  de vagas, devidamente aumentadas, com total transparência e inteira justiça;
d) rejuvenescimento e estabilização da carreira docente, absolutamente urgentes;
e) regularização dos horários e vínculos dos educadores e professores, acabando com a humilhante precaridade existente e o desregulado ritmo de trabalho a cumprir ;
f) gestão escolar democrática, a qual deve ser retomada nas escolas, o mais rápido possível ;
g) contratação imediata dos auxiliares educativos e demais funcionários em falta nas escolas e investimento urgente nas instalações e nos equipamentos escolares degradados.
A profunda e sentida razão destas exigências poderão ser medidas pelo sucesso obtido na mais recente batalha da classe: quase um mês, consecutivo, de greve às avaliações, com vários milhares de reuniões por realizar, de norte a sul do país, numa adesão da ordem dos 90%! Neste contexto é de realçar a enorme coragem pessoal dos largos milhares de docentes envolvidos e, bem assim, a firme determinação que demonstram em conseguir a plena satisfação  das suas justas exigências. É de evidenciar, igualmente, o elevado espírito de sacrifício e de entrega à luta, demonstrados por todos, bem como deve ser sublinhada a efetiva solidariedade construída entre docentes efetivos e contratados, na procura de soluções práticas que minimizassem os decorrentes e vultosos sacrifícios pessoais e materiais, para os educadores e professores empenados na greve.
O Algarve contribuiu, plenamente, para o êxito desta luta nacional. A adesão dos docentes algarvios, uma das mais elevadas de quantas se registaram na Região desde sempre, constituiu uma efectiva demonstração de unidade sindical, revelou uma significativa consciência de classe, evidenciou uma grande solidariedade profissional, para além da interiorização profunda das justas razões do seu combate.
Tão importante como a forma luta adotada, foi o criativo e valioso percurso efetuado, não obstante os diversos posicionamentos sindicais em presença e, naturalmente, as variadas motivações políticas em  campo. A enorme adesão conseguida nesta fase da luta, independentemente de certos contratempos inegáveis e dificuldades sérias no caminho percorrido, foi construído tendo por base os objetivos comuns vivenciados pela classe e, de há muito, colocados em debate na sociedade. Os êxitos, inegáveis, desta unidade vão ser determinantes nas ações futuras e a experiência acumulada não  pode ser desperdiçada. A greve é a forma superior da luta dos trabalhadores, parte determinante em qualquer processo negocial. E é condição indispensável, no complexo e dificílimo combate pela afirmação e defesa dos justos direitos de quem trabalha!
A greve é, naturalmente, um meio e não um fim em si mesma. Graças a esta grande greve o Ministro da Educação foi obrigado, para já, a vencer «O MEDO DE EXISTIR» e a dialogar com os representantes dos docentes.
Os educadores e professores, organizados nas suas estruturas de classe, não ignoram os estrangulamentos, as objectivas contradições e decorrentes complexidades que continuam a determinar a política educativa deste Governo. Não desconhecem, também, as manifestas dependências e constrangimentos, bem como as evidentes insuficiências e as profundas dependências exteriores, existentes no quadro parlamentar atual. Têm, por outro lado, plena consciência dos efeitos prejudiciais e multiplicados, sobre o conjunto da sociedade, criados por uma informação hegemonizada pelos interesses daqueles que pretendem retomar as políticas “troikistas”. Tão pouco menorizam as consequências desse domínio prolongadíssimo dos “media”, com a sua evidente capacidade de manipulação social e de divisão no meio dos trabalhadores, compra de consciências e vontades, construção de “realidades” à medida, de “inevitabilidades” forçadas e de “culpados” principais …
Veja-se, apenas a título de exemplo, a campanha inqualificável a uma das estruturas sindicais que apoiam a greve, bem como ao seu principal responsável, quando são várias as estruturas em luta e diversos os responsáveis sindicais envolvidos no mesmo combate!
Os docentes têm de ter em conta, evidentemente, os infindáveis recursos financeiros detidos pelos sectores mais conservadores da sociedade. Bem como têm de ter presente, igualmente, o repugnante papel de figuras e “personalidades” aparentemente diversas mas que representam os mesmos interesses privados, exclusivamente movidos pelo lucro, colocados em inúmeras esferas do poder e desejosos de construir um ensino público “utilitário”, não humanista e “desculturalizado”. Ensino esse destinado aos mais desfavorecidos socialmente, capacitando-os apenas para serem futuros “braços” disponíveis e “cabeças” obedientes …
A longa História do movimento organizado dos educadores e professores portugueses é uma memória que honra todos os profissionais, pais e encarregados de educação, a população em geral, pois teve sempre como horizonte a construção de um país melhor. E honra, nomeadamente os que, hoje, continuam o combate por uma EDUCAÇÃO capaz de potenciar a formação integral dos indivíduos.
EDUCAÇÃO na qual os valores da liberdade e da democracia, da crítica e da inovação estejam, efectivamente, presentes nos conteúdos temáticos e sejam dominantes na prática educativa dos seus profissionais.
EDUCAÇÃO na qual os princípios da solidariedade e da tolerância, do respeito pelo “outro” e por uma verdadeira inclusão da diferença, possam ser claramente predominantes nos conteúdos culturais transmitidos.
EDUCAÇÃO, na qual a escola e o ensino públicos sejam espaços muito mais do “ser” e muito menos do  “ter”, constituindo assim os alicerces indispensáveis para uma cidadania plena.

Augusto Lourido
* Professor aposentado/Cidadão sindicalizado

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