AO CORRER DA PENA 7: Este mundo enlouquecido

OPINIÃO | FERNANDO PINTO

O Mundo parece estar prestes a desabar… Por todo o Mundo, da Europa à Ásia, das Américas à Austrália, são fogos que ardem sem limites, enxurradas bíblicas que tudo arrastam após dias de canícula e secura extremas nos locais mais inabituais, monções fora de época, degelo de largas frações dos calores polares, ventos e furacões em latitudes nunca antes alcançadas e níveis de ozono que nos deixam fechados em casa, para além das incontornáveis erupções vulcânicas de consequências nunca antes tão globais. Não esqueçamos as ancestrais secas de África, que provocam agora um vergonhoso número de mortos no Mediterrâneo a que se somam outros milhares de seres humanos que fogem a guerras que, as mais vezes, nem eles próprios compreendem. A estes eventos há que somar um sem número de outros que julgávamos controlados ou pelo menos bastante minimizados através de mecanismos concebidos pelo engenho humano, mas que afinal se revelam tão frágeis quanto castelos de cartas: são barragens que controlavam regimes de cheias que colapsam por razões construtivas, ou pontes essenciais que tombam por falta de manutenção, postes eléctricos que caem e incendeiam florestas ou derrames de substâncias tóxicas ou contaminadas, por fábricas e outros complexos construídos, que matam tudo e todos à sua volta! Na base de tudo isto está, regra geral, a cegueira causada pela ganância de muitos dos seres humanos privilegiadamente situados no topo das escalas social, económica e política e que, para além de ditarem as leis que mais lhes agradam e servem, mesmo assim as desrespeitam e pervertem, quando melhor lhes convém! Estão aqui os Espírito Santo, os Benetton e os Trump desta vida, para só dar três exemplos minimamente recentes e familiares. Claro que é neles que reside o grosso do nepotismo e de outros clientelismos e, por isso mesmo, da quota maior de responsabilidade da corrupção e do que de mau ocorre no Mundo. Durante muito tempo, todos confiámos na seriedade dos banqueiros, no rigor dos políticos, nos bons propósitos dos “capitães da indústria” mas, nos últimos tempos, têm-se vindo a acumular provas da vulnerabilidade da sua integridade, da sua corruptibilidade, das suas fraquezas. Serão todos assim? Não creio, mas como se costuma dizer, “paga o justo pelo pecador”… Para assim não ser, haverá que instituir mecanismos de controlo de transparência, de corrupção e de rigor na utilização de dinheiros públicos e privados (que, ao que parece, pelo menos nos bancos, se diz existirem mas que, pelos vistos, não têm funcionado). Estou ainda a lembrar-me, a talhe de foice, do célebre “Caso dos submarinos” em que, na Alemanha onde os submarinos foram fabricados, houve gente punida por ter corrompido gente em Portugal mas, em Portugal, nunca ninguém foi sequer acusado de ter sido corrompido! Mistérios provavelmente só possíveis porque se trata de máquinas que, deliberadamente, são para passar despercebidas! Mas voltemos à “vaca fria”: o estado deste Mundo deve-se, em grande parte, à preferência de quem manda, bem mais pelo estado das finanças (das próprias ou do seu grupo) que pelas consequências que as suas acções poderão vir a ter no estado do Mundo! E é isso que nos dias de hoje começámos a sofrer. Valerá ainda a pena dizer que não são só estes (grandes) senhores que nos puseram neste estado! Muito pequeno “fechar de olhos”, muita pequena ilegalidade, muito favorzinho, também contribuíram alguma coisa para isso. Recordo as enxurradas que levam casas construídas indevida e ilegalmente em leito de cheia, derrocadas ou simples degradações aceleradas causadas por construções feitas abaixo dos níveis mínimos exigidos (por exemplo, sem varas de ferro no betão!), muito “esgoto a céu aberto” originado por casas clandestinas que despejam os seus esgotos em redes de águas pluviais, etc. etc. etc. São pequenas corrupções que, porque demasiadas e de efeito cumulativo, muito contribuem para a degradação das condições ambientais, para a poluição de rios e ribeiros e para o avolumar de consequências quando as condições do próprio meio se tornam extremas. Se a falta de planeamento (isto é, de previsão) é um vício crónico do nosso país, também é crónica a tentativa de ultrapassar o que prescrevem os regulamentos e de faltar ao cumprimento das obrigações legais de cada um! E com consequências funestas senão a curto, pelo menos a medio e longo prazo. Infelizmente neste Mundo, temos muita (e má) companhia e por isso não se têm sublinhado muito as consequências dos “jeitinhos”, dos “desenrasca aí…”, dos “faço ilegal e depois pago a multa” e outros tais que, paulatinamente, pouco a pouco, vão minando as nossas comunidades e até a sobrevivência das gerações futuras. Espero, por isso, que a vitória agora alcançada pelos algarvios no domínio dos “furos petrolíferos” se multiplique e que incida também nas mil e uma formas como este mesmo Algarve tem sido desrespeitado na sua integridade e violentado na sua capacidade de carga humana, assim comprometendo irremediavelmente o seu futuro. É que quem hoje o violenta na sua integridade, quando ele estiver exausto, partirá para outra qualquer parte do Mundo ainda não estragada até que não haja mais Mundo para estragar! Entretanto, para nós ficarão os recursos esgotados, as ruínas de um abandono e ainda a conta da recuperação possível, para além de uma parcela importante e muito significativa do país de todos nós, destruída… Ainda não é tarde para agir! Ainda vamos a tempo de recuperar, senão todo, pelo menos uma parte significativa deste nosso “jardim à beira-mar plantado” e, com ele, uma significativa parte do próprio Mundo!

Fernando Pinto

*cronicas.fp@gmail.com

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