AVARIAS: Não me parece bem

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Existe, nos canais do nosso espectro televisivo, um spot (espote em espanhol) publicitário de uma conhecida empresa de crédito, que não digo o nome mas que os meus leitores não devem desconhecer, que apresenta um casal, supostamente moderno que vende o produto em causa e que vos quero aqui relembrar. Inicialmente a senhora segura uma pequena cadelinha (com um nome característico, sabe-se depois), daquelas muito nervosas que ladram à menor corrente de ar; ele por detrás, cara a fazer de parvo, começa a falar e é imediatamente interrompido pela mulher, ao mesmo tempo que apresenta as condições do produto, de uma forma resoluta, como ele não foi capaz de fazer. A apresentação firme e decidida é acompanhada pelo movimento, onde a cadelinha é depositada nos braços do da cara a fazer de parvo. No tempo em que a senhora pára para respirar, ele, o da cara a fazer de parvo, tenta uma achega mas é novamente interrompido. Afinal a explicação é dela e é dela o remate. Ele, impotente, limita-se a constatar o facto: o poder está no lado feminino, tanto ou tão pouco, que o sopt publicitário acaba, com a senhora a dirigir-se para a sua única interlocutora, a cadela; ele calado. Porque trago à lidação este pequeno assomo de poder, segundo os padrões actuais? Porque a discussão dos papéis do homem/mulher está a começar a ficar tão inquinado, que se não estivéssemos em Portugal, uma qualquer associação de homens já teria protestado pela forma torpe e, no mínimo deselegante como é, por vezes, tratado o universo masculino. Assim, como estamos em terras lusas e ainda se pode brincar com estas coisas a discussão fica por aqui sem ter, felizmente, começado. Não tenho razão? Estou a ser exagerado elevado à quinta potência? Se pensam isso, imaginem a situação ao contrário. Um casal e uma cadela, ela (a senhora) começa, ele (o homem) interrompe-a não a deixando falar, não uma mas duas ou três vezes. Ele acaba a conversa, ela com o rabo entre as pernas em retirada, com a cadela, que recebeu dele, na mão. O que iriam dizer as feministas cá do burgo? O que se podia passar? Que era tempo da televisão deixar de veicular mensagens que passam uma suposta superioridade masculina? Que isso seria o fim do mundo: publicidade machista não devia ter entrada as nossas televisões, e que por este andar a igualdade de género ainda é uma miragem na terra dos tugas etc. etc.
Não pretendo ter razão, posso só estar a ser um bocadinho impertinente, mas enquanto aproveitam o Domingo para comer caracóis, só queria lembrar-lhes que, não sendo uma praga no nosso país, o politicamente correcto vai abrindo uma vala onde que só muito dificilmente não iremos, mais cedo ou mais tarde, cair. Sobre os homens vai sendo permitido dizer coisas que, até hoje no lado das mulheres, soavam a pecado capital e isso não me parece bem. Deu-se uma volta, e aos homens (se calhar por culpa destes), cabe hoje inverter o ónus da prova, sobre machismo e superioridade de género. Um dia iremos queimar cuecas em manifestações.

Fernando Proença

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