AVARIAS: Hoje estou assim

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Se bem me lembro (como dizia Vitorino Nemésio velho Herodes) terá sido o filósofo contemporâneo Roger Scruton a dizer (ou simplesmente a insinuar), a propósito de Maio de sessenta e oito, que o que lhe causava perplexidade era que fossem os filhos dos burgueses (estudantes) que se manifestavam contra os polícias (filhos da classe operária). Scruton queria alertar para o aparente anacronismo da situação: sob o diáfano manto da revolução, eram os burgueses, que diziam tudo “querer mudar”, para que tudo ficasse na mesma, numa perfeita troca de papéis. Não sei se tudo terá ficado assim imóvel, nem que a representação da classe operária via polícia de choque, fosse, na altura, tão simples de entender. Atenção que Scruton é um filósofo conservador, mas a ideia faz pensar. Vem tudo isto a propósito de um episódio que catrapisquei na RTP2 de uma série francesa supostamente interessante, com um nome que não engana: “Volta ao mundo em 80 dias sem um cêntimo”. De vez em quando vejo aqui e ali, personagens mais ou menos conhecidas que fazem a sua vida explicando que fizeram umas férias de trinta dias, indo à Lituânia e voltando, sem gastar um tusto. Lembrando um artigo que já escrevi, lá para as calendas gregas, cá para o Fernando José, tudo se reduz a uma equação; o que interessa é andarmos por todos esses campos e montes à pala de alguém. O que os autores dessas conversinhas não dizem é que grátis nem os guardanapos nos restaurantes quanto mais viagens. Para alguém que circula sem pagar há sempre alguém que paga por ele. Lembrei-me de Scruton quando no episódio em questão, encontrei os dois rapazolas franceses que são os protagonistas da série, a circularem num dos comboios indianos, rumo à cidade de Varanesi, pedindo a estudantes indianos para lhes pagarem os bilhetes. Todos os estudantes iam à cidade fazer um exame e preparavam-se para fazer, durante a noite inteira a viagem no comboio, que há semelhança da grande maioria do material rolante do país, está em péssimas condições de conservação. E o que me causou mais desconforto foi que os estudantes lá fizeram o respectivo peditório entre eles e angariaram as rupias suficientes para a viagem dos franceses. Ora onde quero chegar é que só um dos francesitos deve ter mais dinheiro na conta à ordem que os oito ou nove indianos, todos juntos e ao vivo, mais os respectivos pais. Posso estar a armar-me um bocado em moralista mas entendo mal o gozo da situação em que dois bem na vida se safam à custa de pobres (que quiseram aparecer na televisão, verdade seja dita). Hoje estou assim.
Também voltei a espreitar a “Liga dos Últimos”, agora em reposição na RTP Memória. Ao tempo (e apesar de me rir com muitas situações) vi o programa como uma brincadeira um bocadinho parva sobre as equipas de aldeia e de bairro. Lá, apareciam os bêbados, malucos e gente normal, mas já antiquada para os nossos padrões, a largar postas de pescada, parvoíces e frases cheias de uma piada que brevemente se perderá, tudo colhido pelos campos de futebol desse nosso Portugal em vias de desaparecimento. A ideia da classe média, que acha muita piada a esses homens e esses ditos, é a de que pertencem a um mundo morto e enterrado, e que já não volta. Bastaram os episódios Bruno de Carvalho para provar que estavam muito enganados. Tudo o que passa na “Liga dos Últimos” é pura honra e intelectualidade ao pé de muita gente que hoje circula no nosso futebol de elite.

Fernando Proença

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