VOU ALI… E JÁ VENHO

OPINIÃO | NETO GOMES

 

Morreu o Dominguinhos, que jamais te esquecerei, não pela velocidade, pelo drible, pelos golos, mas apenas e só, pelo ser humano que sempre foi…

Silêncio e muita gente, foi a exaltação encontrada pelos vila-realenses (amigas e amigos) e muitas gente anónima, que se deslocaram de fora, para homenagearam e se despedirem do Domingos (o Dominguinhos), como era afectivamente tratado.
Com ele, faleceu um dos muitos criativos, mas cremos que o maus explosivo, futebolista nascidos em Vila Real de Santo António, e por isso também acreditamos, que mais que o medo de não vencer, que o amor à sua terra, não lhe permitiu a libertação, que precisava, para ser tornar num dos melhores jogadores da sua geração.
Uma geração, onde despontaram Almeida, Jacques, José Armando, Peres, João Luís, Sanina, Vasques, Caixinha e tantos outros, que em certa altura, a soma, de muitos vila-realenses, era mais de metade da equipa do Farense, a actuar no Campeonato Nacional da Primeira Divisão.
Reforçava esse conjunto de vila-realenses, Manuel José e muitos outros, uma geração, diga-se que há mais ou menos um ano, a direcção do Farense, já na altura presidida por outro homem nascido em Vila Real de Santo António, António Correia, que em Outubro do ano passado, aproveitando um Lusitano/Farense, se permitiu a homenagear todos os jogadores nascidos ou não em Vila Real de Santo António, mas que tinham defendidos as cores dos dois clubes. E lá esteve também, o Dominguinhos, para ter o seu momento de glória, tendo a seu lado: José Armando, Domingos, Almeida, Manuel Fernandes, Vasques, Caixinha, José Eduardo, Paixão, Miguel, Marco Nuno e Paixão. Faltaram Reina, Miguel Rosa e outros…
Domingos António Reis Arsénio nasceu a 22 de Outubro de 1950 (tinha completado havia uma semana, sessenta e sete anos), em Vila Real de Santo António e o Lusitano local foi o seu primeiro clube, nos juvenis e nos juniores. Chegou a estar uma semana a treinar no Benfica, mas a falta de adaptação, mas sobretudo, as saudades de casa, fê-lo estar de regresso à família.
Depois do Lusitano, foi ao encontro daquilo que não gostava de fazer, sair de casa, de Vila Real de Santo António e do Algarve, e começou por representar o Lusitano de Évora, depois o Farense, onde chegou a ter como companheiros, mais quatro vila-realenses; José Armando, Almeida, Manuel José e Jacques. Depois com Jacques rumaria ao Famalicão.
Para regressar depois ao Algarve e concretamente ao Olhanense, na temporada 1978/79, numa altura em que faziam parte da equipa vários seus conterrâneos, João Luís, Salas, Almeida, Sanina e Ruas.
Mais tarde, regressa ao Alentejo, para representar o Elvas e depois o Imortal de Albufeira.
Finalmente na época de 1983/1984, regressou à terra e ao clube do coração, o Lusitano, onde terminou a carreira, no final da época 1986/87.»
Domingos vestiu a camisola da Seleção Nacional de Juniores, por três ocasiões. A primeira foi a 2 de Abril de 1969, em Como, frente à Itália, a contar para o torneio de apuramento, cuja fase final decorreu na República Democrática Alemão, que terminou com um empate a uma bola.
Neste jogo em Itália, sob a arbitragem do suíço, André Cereti, Portugal alinhou do seguinte modo: Luz, Peixoto, Tomás, Laranjeira e Barbosa, João Machado, Hélder, Jacinto Simões e Nando, Domingos e Serafim. Selecionador: Dr. David Sequerra.
A 20 de Maio, já na República Democrática Alemã, no primeiro jogo da Fase Final do Torneio da UEFA, Domingos não sai do banco. Portugal perde com a Roménia por 2/0. Com Portugal a alinhar com: Luz, Barbosa, Laranjeira, Tomas, Peixoto, Jacinto Simões, Hélder e Carolino, João Manchado, Serafim e Eduardo Jorge. Portugal fez duas substituições, Simões, aos 62, entrou para o lugar de João Machado, e Nando, após o intervalo para o lugar de Carolino. Não saíram do banco, além de Domingos, Vítor Manuel e Rui. Arbitro: Touchov, da Bulgária.
Dois dias depois, a 22 de Maio, contra a Turquia, Domingos saiu do banco, aos 60 m, para o lugar de Rui. Sob a arbitragem do polaco, Bojai, Portugal alinha com: Vítor Manuel, Barbosa, Laranjeira, Tomás, Peixoto, Serafim, Jacinto Simões, Simões, João Machado, Rui, depois Domingos, e Nando.
Acompanhei, mais ou menos de perto esta fase brilhante, da carreira do Domingos, tendo mesmo assistido, alguns treinos dos seus treinos que tiveram lugar no Estádio do Restelo, em Lisboa, com Os Belenenses, num período, em que fazia estágios nos jornais A Capital e o Mundo Desportivo, onde passei a ter grandes amigos, como os saudosos David Sequerra e Fernando Pires, brilhantes jornalistas, e o próprio António Castro, que chegou a lugar de destaque no Mundo Desportivo. Cheguei aqui pela mão do nosso Manuel José, que na altura jogava no Belenenses, treinador pelo grande Capitão Mário Wilson, que nalguns treinos que fiz em Belém apelidou de o «back da morte»…
Lembro-me bem, que numa paragem prolongada do treino, o Domingos chamou-me e apresentou-me o Peixoto, lateral, muito baixinho, que jogava no Atlético, mas que era mais duro que uma pedra…
Sempre mantive com o Domingos, em todos os momentos das nossas vidas uma relação bonita. Quando nos encontrávamos, tratava-me com enorme carinho e com afectividade, chamava-me de Netto…
Um homem exemplar, educadíssimo, como já lembrei numa das mensagens que fiz chegar à família, e um ser humano fantástico, sempre disponível e educado.
Nas longas horas do seu trabalho, responsável pelo serviço de sala, do restaurante do Clube Naval, em Vila Real de Santo António, nunca lhe vi um protesto, nem lhe li nos olhos, questões de desconforto. Trabalhava e organizava e mal me via entrar, com toda a sua calma, dizia-me: Netto temos ali o teu prato favorito, estupeta (atum).
Tendo a família e a terra que o viu nascer, como amor maior, que inibe todas as ambições para prosseguir uma carreira como profissional de futebol, com todo o talento bem presente, e o próprio Algarve, pese bem ter espreitado lugares como Lisboa, Famalicão, Évora e Elvas acaba por passar por dois dos mais prestigiados e históricos clubes do Algarve, Sporting Clube Farense e Sporting Clube Olhanense e, mas antes fazendo a ponte, esta ponte histórica, de ter jogado no Famalicão, o tal clube que em meados da década de quarenta, abriu as portas douradas para que o Lusitano F. Clube, o nosso Lusitano tivesse ingressado nos Campeonatos Nacionais da 1.ª Divisão Nacional, o que levou a que o País passasse a conhecer uma das maiores maternidades de futebolistas a sul do Tejo.
No seu derradeiro adeus, estiveram presentes, muitas caras conhecidas, amigos do peito, Presidentes do Lusitano, Miguel Vairinhos e do Farense, António Correia, e ainda João Gomes, antigo Presidente do Lusitano, Olhanense e da Associação de Futebol do Algarve. Mas também amigas e amigos de infância, gente da bola, como o Almeida, João Peres, António Baptista (Catarrinho), Mestre Rosa, João Carlota, Francisco Carlota, Barnâncio, Sanina…
Outros como Godinho, Nogueira, João Salas, António Conquilha, João Vasques, diga-se muita gente que representou o Lusitano, assim como o nosso director, Dr. Fernando Reis e responsável editorial, Dr.ª Luísa Travassos.
Domingos era um predestinado para a bola. Tão sereno como talentoso, tão, como explosivo e humilde, nunca querendo para ele o que pertencia aos outros, que em coro gritavam: Perdeu-se um grande jogador.
Todavia nunca se poderás dizer, que por culpa da bola, se perdeu um homem muito especial, sempre discreto, até na hora de fazer o pedido de um cliente, mostrar a montra, para satisfação do mesmo, ou dizer até amanhã.
O Domingos nunca mais me indicará onde está a melhor estupeta, mas eu, enquanto por cá andar, porque tu foste um bom amigo, que sempre me acarinhaste, jamais te esquecerei, não pela velocidade, pelo drible, pelos golos, mas apenas e só, pelo ser humano que sempre foste…

Nota: Escrevo assim, porque sou contra o novo acordo ortográfico.

Neto Gomes

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