VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

OPINIÃO | CARLOS FIGUEIRA

Aconteceu motivo de enorme celebração dos amigos que o têm acompanhado sempre na vida política (PSD e PP/CDS ) os dois anos no exercício da Presidência da República por parte de Marcelo. No exagero só faltou a entronização, como se de um Rei se tratasse. Valha-nos que a coroação esbarrava no facto de sermos um regime republicano, com uma Constituição que claramente define os poderes do Presidente da República, da Assembleia e do Governo, sendo estes últimos os mais importantes para a vida política do País e dos seus povos.

Marcelo como Presidente da República tem exercido o seu mandato numa postura de fusão entre o comentador televisivo, instrumenta essencial na sua vitória presidencial, com a de um presidente que se tem de expressar quotidianamente sobre tudo e nada, ultrapassando não poucas vezes, os limites que a Constituição lhe confere. Recados ao Governo, opiniões que pode ter como cidadão e outras que lhe recomenda reserva em função do exercício do cargo que ocupa e das posições politica que lhes estão na origem. Os exemplos são vários, o último dos quais, o seu discurso no encerramento do Congresso da Associação Nacional das Juntas de Freguesia na qual em tese, defende, invocando a sua experiência como eleito em órgãos autárquicos, que para se ser um bom dirigente de governo tem de ter antecipadamente uma experiência de dirigente autárquico.

Ora a sua experiência neste domínio não serve para exemplo porque enquanto perdedor à Câmara de Lisboa numa coligação perdedora com o CDS/PP, bem como a sua passagem pela presidência da Assembleia Municipal de uma autarquia de onde é oriundo e na qual de vez em quando marcava presença. Constituíram elementos significativos, para além de uma comunicação social subserviente que na altura de tais passagem fez de tais actos alguma notícia de relevo.

Mas, ainda sobre o encerramento de tal Congresso das Juntas de Freguesia, o que se esperaria, a meu ver, de um Presidente atento ao Poder Local, seria pronunciar-se criticamente quanto a uma arrumação forçada e sem sentido de Juntas de Freguesia que hoje mais que ontem está posta em causa, num agrupamento irresponsável determinado compulsivamente pelo governo de Passos Coelho e aplicada com a mão sancionatória do Ministro de então Miguel Relvas.

Ou seja, falar de tudo e nada, como Marcelo tem vindo a exercer o seu cargo, pode diferenciar-se agradavelmente do ministério sisudo e permanentemente zangado perante os portugueses, corporizado por Cavaco, mas o ministério dos afectos, surgido após a catástrofe dos incêndios, não está para durar.

Já não tenho espaço para abordar de uma forma mais vasta outra questão de enorme importância que ocupa o momento político que o País atravessa, com repercussões de desenho para o sistema político, a saber, como se compõem e quais os limites no exercício de cargos públicos, importantes na definição para democracia, como seja, a transparência no exercício de tais cargos.
Até lá, os campos do Alentejo estão verdes, e quando o Sol no seu percurso de se esconder, transformam-se em verde limão, tal como Camões os identificou no olhar da sua amada.

[email protected]
NB: Defendo que o aeroporto de Faro se passe a chamar aeroporto do Algarve Manuel Teixeira Gomes

 

Carlos Figueira