VAI ANDANDO QUE ESTOU CHEGANDO

OPINIÃO | CARLOS FIGUEIRA

A menos de um mês da investidura de Trump como presidente dos EUA, para quem tivesse ainda algumas dúvidas, já deu para perceber que entramos num tempo novo marcado por políticas radicais envolvidas em populismos e demagogia, destinadas a proteger o mundo financeiro que o rodeia e do qual faz parte, com expressões de idêntico radicalismo no plano internacional que contribuirão para acentuar um clima de insegurança e medo. Significa igualmente que a liberdade nas várias formas da sua expressão como os direitos sociais e do trabalho estarão a partir daqui ameaçados e em vigilância constante. São novos tempos com repercussões e seguidores na Europa, dando alento a partidos de extrema direita, num ano que será marcado por eleições em França, na Alemanha e na Holanda e não sei se para além destes haverá outros. Tempos novos a exigir coesão, coragem, não só como exercício necessário de resistência mas igualmente para erguer particularmente no que respeita à Europa, novas lideranças e políticas que favoreçam a coesão, o desenvolvimento de Países e povos, dirigidos para dar consistência ao projecto que a todos diz respeito, que representa a União Europeia.

A meio da semana anterior acolhida pelo Clube Farense realizou-se uma sessão para divulgação da última obra de Carlos Brito, centrada na cadeia de Peniche, onde permaneceu vários anos como preso político, prisão que foi símbolo maior do regime fascista de Salazar, hoje em demanda acerca da possibilidade de ai ser construída uma unidade hoteleira, num processo que está longe, felizmente, de estar encerrado, dada a oposição da própria autarquia a tal solução, para alem de muitos outros que defendem a instalação, nesse simbólico local, de um museu de resistência que preserve memória e eventualmente até possa servir de estudo aos mais de quarenta anos de ditadura.

Mas tratou-se de uma sessão que esteve para além do que de imediato se propunha, a defesa de um património histórico, tendo nela ficado pela voz e experiência vivida por CB, a divulgação assente no conhecimento de várias fugas, uma das quais envolvendo Cunhal e outra Dias Lourenço. Mas, tão importante como tal, no centro da exposição, também pelo contributo dado por Vítor Neto, chamado a apresentar o livro, o tema da liberdade e da fragilidade em que se encontra, dado o momento que atravessamos a nível mundial e mesmo na Europa assumiu justamente um papel central no conteúdo de cada exposição. Liberdade como elemento essencial à democracia e à defesa de direitos dos povos e ao desenvolvimento da cada País, direito hoje ameaçado às mãos de novos e velhos ditadores. Ganhou assim no debate, particular relevo, a ilustração do papel da resistência de quem preso por ideias diferentes das do regime fascista, na circunstância como CB, tiveram a coragem necessária, mesmo em condições da enorme dificuldade em que vivam, lutar para libertar a liberdade.

Chegou-me a triste notícia da morte de Georgette Ferreira aos 91 anos. Destacada dirigente do PCP antes e depois do 25 de Abril, membro do Comité Central e em duas ocasiões deputada à Assembleia da República. Dirigente de raiz operária, de uma fina inteligência à qual associava uma determinação invejável, personagem doce e dura, bonita, elegante, nunca desprezando o seu modo de estar e vestir, mesmo nas difíceis condições de clandestinidade em que há muito vivia. Tive oportunidade não só de a conhecer de perto como, politicamente, a partir de certo momento, ter pertencido ao Comité Local do Porto que estava a seu cargo dirigir.

Tinha chegado clandestinamente ao País destinado a integrar o aparelho clandestino do PCP e, provavelmente, tendo presente a minha origem no Sul, destinaram-me o Porto para actuar nas funções que me destinaram. Levei alguns meses a perceber a minha utilidade porque esta se reduzia a encontros escassos e distantes no tempo. Mais tarde percebi que tinha estado numa espécie de exame prévio que acabou com a minha integração no já referido Comité. Tenho desse tempo gratas recordações da mulher elegante, dura e suave, dirigente revolucionária, Georgette Ferreira.

Carlos Figueira

 

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