Um dia de pesca no rio

OPINIÃO | ANTÓNIO GIL

Desde tempos ancestrais – remontam aos primórdios da existência -, que o homem caça e pesca. A necessidade de subsistir aguça e desenvolve o engenho. Aperfeiçoa os meios de que dispõe. Movimenta-se, actua em grupo, para maior eficácia e defesa, dada a proximidade da presa a abater e a sua corpulência. Na evolução tudo se altera e modifica.
Dispõe agora de meios que utiliza e precisa sem a preocupação primária de se defender do perigo. Até chegar o momento em que se disponibiliza por prazer e gozo.
Caçadores e pescadores são contadores de histórias, que se eternizam e não cansam de ouvir. Referências duma cultura, continuadores também de hábitos e costumes, que se transmitem e herdam de geração para geração.
A conversa flui na companhia do afamado nectar da região, onde é reconhecida a protecção das espécies e o controlo do maior predador – o homem.
– Ali, onde o rio serpenteia, faz recanto, há pesqueiros, pelas características são procurados pelo pescador desportivo. Dispõe de alta tecnologia. Conhece o efeito dos engodos, que faz e utiliza, cujo segredo não revela – segredos de ofício que guarda ciosamente.
Revê-se o equipamento. O estado de operacionalidade com minúcia para que a surpresa não aconteça, sempre aborrecida quando a presa está ao alcance e escapa.
Olhamos a “cara da lua”.O calendário confirma o bom dia de pesca. Ainda a noite dorme já o velho Ford interrompe silêncios e segredos com sinais de arranque.
Desvia-se de abismos. O rodado passa com cautelas por estreitas e perigosas “gargantas”. Patina. Para. Arranca. Cheira ventos e tempestades. Raposa velha e matreira, que o tempo ensinou. Conhece o marujar dos açudes. A força do caudal.
O dia rompe. Começa a clarear. Põe a descoberto o relevo. O bucolismo da paisagem. O rio com o seu encanto e fantasia. O Sol é uma bola gigante, vermelha, que assoma por detrás dos cabeços para se mostrar em todo o seu esplendor. Maravilhosamente belo e fantástico. Obriga o véu branco a desprender, a elevar-se, até desaparecer.
Começa a espelhar-se na água pequenos circulos provocados pelos movimentos de peixes à superfície. A estratégia está montada. Pescamos ao fundo; à boia e à amostra.
Trinados melódicos, dispersos, de pequenas aves, demarcam o território. É isso com certeza. Calam-se por momentos ao ouvir o assobio do pastor, que orienta o trabalho obediente do cão. Escuta o balir de ovelha tresmalhada:
– Vai-te a ela. Trá-la cá. Ah! cão duma real figa. Maravilhoso cão. E neste jeito, conhecedor da presença, aproxima-se e bebe um copo. E mais outro…
A captura foi significativa. Prepara-se o tradicional caldo de peixe. – Que nada falte é o reparo oportuno. Na composição é indispensável o poejo e a hortelã da ribeira, conhecidas ervas aromáticas, que lhe confere sabor distinto e agradável. Em lume brando, feito de estevas, o tacho liberta cheirinho que pede provas. Está na hora de fazer as sopas de pão, de preferência duro e alentejano. Tem saberes. Sucedem-se os copos. Para completar não falta a massa cotovelo.
Todavia, no salutar convívio, a voz do ministro – logo aquela hora – está no ar com as costumeiras promessas, que provoca, na circunstância, espontâneas reacções… Cala essa voz…

António Gil

Nota: Não escrevo pelo novo acordo ortográfico

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