SMS: RTP, sem R, sem T e com um bocado de P

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

O título deste apontamento não é brincadeira. A RTP é hoje a soma de muito passado, bastante mal passado e algum bem passado. A rádio que, sob outras siglas, nasceu e cresceu como meio de propaganda do Estado e hoje se assume de “serviço público”, vai nos seus 82 anos (emissões regulares começadas em 1 de agosto de 1935); a televisão, também nascida nos lençóis da ditadura e hoje igualmente com a profissão de “serviço público” no bilhete de identidade, acaba de fazer a festa dos 60 anos (emissões regulares iniciadas em 7 de março de 1957); e no que a RTP pode parecer mais jovem, o online, pouco lhe falta para terminar a adolescência – 17 anos. O tempo voa, as siglas ficam. Quem faz o que as siglas significam, dentro dos estúdios ou à frente do computador, pode não perguntar por distração das rotinas, mas quem ouve e vê, em algum momento interroga, até pela obrigatoriedade da taxa de radiodifusão constante na fatura: que Rádio é este R? Que Televisão é este T? E que P é este de Portuguesa?

No Algarve, enquanto não houver uma Rádio regional de serviço público, não é R; enquanto não houver estúdios com centro emissor na região e da região, não se pode falar em T; e quanto ao P de Portuguesa, enquanto Lisboa ou Porto com respetivos arredores garantirem que chove quando no Algarve faz sol, não havendo nada mais deste mesmo Algarve a constar nos noticiários a não ser crime de monta, desastre chocante ou acontecimento exótico emocionante, então o P pode ser tudo menos a letra inicial do adjetivo Portuguesa. Ou seja, não há razões para se festejar no Algarve, 82 anos de rádio, 60 de televisão e 17 de online, além de não se poder nem dever exigir às estações privadas que façam o que ao serviço público compete e deve fazer. Mais: em vez de no Algarve se registarem avanços, houve desastrosos recuos.

Pior que fazer furos para o petróleo, pior que os grandes operadores económicos e financeiros da região não terem aqui pé mas apenas mãos, pior que as burocracias locais umas, desconcentradas ou descentralizadas outras, prosseguirem o seu trabalho de bichos carpinteiros comendo as tábuas de salvação, e até pior que os exercícios autistas da política local e regional com que alguns chamam o populismo como quem chama pelas aves, sem se importarem se tais aves são pombas ou abutres, pior que tudo isso, é termos no Algarve uma sociedade sem comunicação, e, por isso, sem informação cujo teor tenha uma relação direta, atempada e constante com o que está à vista, entra pelos ouvidos e se precisa no dia a dia. Em todos os campos: saúde, ensino, política, economia, empresas, cultura, ciência, instituições, identidade…

Não é pedir esmolas, invocando o serviço público sem que seja em vão, o pedir-se uma Rádio Algarve, uma Televisão Algarve, ou mesmo, já que vem no lanço de rede, uma costela da Agência Noticiosa, mesmo que seja costela falsa. Pedir isso é tão-somente ter direito a algum retorno, modesto retorno relativamente ao que o Algarve dá e gera. Em tudo, houve recuo, não houve avanço.

E isto, quanto a comunicação, está tão mau que quem devia formular, pedir, propor, exigir até se for o caso, não o faz, pensando que o press-release, a comunicação institucional, as ações pontuais de animação pagas por quem pode, o boletim e a agenda com a “minha” fotografia, o marketing calculado, ou quatro linhas no boletim oficial dos desastres, crimes & ofícios correlativos, resolvem o mais grave problema do Algarve que é um problema de comunicação.

Flagrante provincianismo: Os folhetos em inglês e garrafalmente só em inglês que a maioria percebe, nem os ingleses. Apenas os franceses entendem com o Google Tradutor…

Carlos Albino

 

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