SMS: Quando a ausência dos jovens nada abona

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

Por vezes, até se torna imperioso perguntar: No Algarve há jovens? Para onde foram os que estão entre os 17 e os 30 anos? Por que não aparecem de livre vontade quando se discute ou devia discutir-se a melhoria da Sociedade, seja de uma lado ou do outro, com a presença deste ou daquele? Qual a razão que leva a que em qualquer sessão ou acontecimento que “cheire” a ideias, a cultura, a política, a memória, a futuro, a aprendizagem, é notória a ausência de sangue novo, de figuras de esperança fresca e de generosidade desinteressada ainda que nalguma percentagem razoável?

É que, quando estão ideias em causa, a sala das ideias tem meia-dúzia de jarretas e outra meia-dúzia de flores de pano. Quando é cultura, as salas onde deveria aparecer Cultura, parecem salas de espelhos. Quando é política, em qualquer um dos seus rumos, além de uns pequenos frisos que, usando a linguagem dos clubes de futebol, desculpem-me, são frisos de jovens “vindos da formação” do clube, além disso, mais ninguém, ou se mais alguém está, já calvo, barba branca e nove ais para passar da posição de sentado à de pé, é para dirigir à zona mais abstracta do tecto o tal repetido apelo paternalista de que “é preciso trazer os jovens”. E não passamos das lamentações, tantas e de tal ordem que, numa inesperada era de muros, o Algarve já deve possuir um dos maiores muros de lamentações da Europa. Preferimos lamentar a ir às causas e, pelo menos uma vez, verificar se há ou não uma explicação para os jovens em peso entrem em rutura com o tempo que os gerou, supostamente os educou e os fotografou no seu crescimento de ano para ano até que a fotografia começou a falar por si.

Caso se recuse um exercício de hipocrisia, não é correto que, por dá cá aquela palha, se diga que os jovens estão injustificadamente ausentes, sendo mais sério reconhecer que os jovens estão em rotura, e mais honesto procurar os motivos de tal rotura, a qual, na pior versão que uma Sociedade pode registar, será uma rotura silenciosa, sem barulho, mas corte com o que lhes foi apresentado como valores ou, pior ainda mais, corte com uma sentida situação de ausência de valores. Ausência de valores na Cultura, na Política, na Memória, para o Futuro, nas posturas da Aprendizagem. Não me refiro ao mero pregão ou aos pregões já doentios dos valores. Estes são muitos, abundam na boca dos pregadores e igualam o número das lamentações. E se calhar é por esta abundância de valores em falsete que os jovens estão em rotura silenciosa que nada abona os pregadores.

Flagrante dúvida: Na verdade, ficamos sem saber se um furo petrolífero, a 45 quilómetros da costa, é mais ou menos perigoso que um secretário de estado colocar-se a essa mesma distância de 45 quilómetros.

Carlos Albino

 

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