SMS: Lembremo-nos dos Natais esquecidos

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

No Algarve, temos ou já tivemos Natal do Algarve – próprio nos cantares, próprio à mesa pela noite fora, próprio nos costumes quer na serra quer no litoral. Bastantes investigadores pegaram no assunto, alguns bons livros fixaram as recolhas, muita interpretação se fez nas duas, três últimas décadas. Entre os queimaram as pestanas nesse labor, é justo destacar Aliete Galhoz, Idália Farinho e José Ruivinho Brasão. Há mais, mas estes deixaram obra já volumosa e de valia. E depois? Os seus livros tiveram as apresentações rituais, foram arrumados nas estantes de entusiastas efémeros e não se nota que tenham feito reviver ou dar forte vida a cantares, costumes e mesas. O Menino nasce e depende dos hipermercados, os costumes são cilindrados por costumes exóticos e à mesa pode haver muito frito e muito cozido mas sem um vestígio do que foi a mesa do Algarve pela noite fora. Não se diz isto por revivalismo, longe o revivalismo, mas apenas porque no Algarve, quando há défice de Algarve, há défice de cultura. Cultura no seu sentido e significado corretos – fruto do saber, do conhecimento e da tradição que prove que a humanidade tem gerações que unem e prolongam a sensibilidade dos valores. Quanto a isto, fomos perdendo Algarve.

As bibliotecas públicas que deviam pegar nos livros, promovem de modo geral brincadeirinhas e fantasias, algumas muito vistosas e até custosas mas sem qualquer homenagem aos que queimaram as pestanas fixando o que ao longo de séculos foi o Natal do Algarve. As escolas imitam as bibliotecas ou por aí se satisfazem com umas produções de literatos tão frustrados como autoconvencidos, como se o Algarve do Natal nunca tivesse tido cantares próprios, costumes próprios e mesa própria, capazes de modificar o rosto sempre online das crianças mas offline se as habituarem a pensar que a cultura cai do céu aos trambolhões, sem passado, com pouco presente e nenhum futuro. Os municípios, também de modo geral, investem na quadra, mas Natal e Carnaval quase se misturam, reduzindo-se o Natal a mascarada atrás de foliões, a que muitos dos quais se dá o nome de animadores, mas sem ânimo. Claro que há exceções.

É bem possível que o Natal próprio do Algarve, ou os Natais do Algarve – há vários -, algum dia voltem às casas, às ruas, mobilizem as escolas, as bibliotecas públicas, e os departamentos municipais de festas. E um Natal do Algarve não significa que se faça o maior presépio da Península, a árvore de Natal mais alta da Europa, o maior bolo-rei do mundo, ou as iluminações mais vistosas do sistema solar, etc.. Enquanto isso não acontece, lembremo-nos dos nossos Natais esquecidos, e já será bom abrir os livros de Aliete Galhoz e imaginar como o Natal do Algarve ressuscitaria se a memória nascesse entre palhas numa cabana.

Flagrante classificação: Com tanto e variado património classificado – o material, o imaterial e até o insuflado -, já era tempo da UNESCO classificar a Humanidade como património da mesma Humanidade. A UNESCO devia começar por aí, para não cair no ridículo.

Carlos Albino

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