SMS: Dois de Portimão: Teixeira Gomes e Querubim Lapa

OPINIÃO | CARLOS ALBINO

A 27 de maio (sábado), Portimão assinala e bem, mais uma vez, a data de nascimento de Manuel Teixeira Gomes, com um “jantar literário” que recria outro jantar onde o autor de “Agosto Azul” esteve presente, organizado também em Portimão, em 1912, por Julião Quintinha, fundador do jornal “Alma Algarvia”, que bem falta hoje faria, porquanto ao Algarve falta alma. Aceitei o convite para “fazer” de Norberto Lopes que deixou uma entrevista antológica com o mítico Presidente da República que renunciou ao cargo e se exilou na Argélia. No ano passado, pediram-me um apontamento destes a que chamo SMS, e ocorreu-me imaginar uma carta que Teixeira Gomes escreveria a Querubim Lapa, o grande artista de renome nacional (da cerâmica e não só), também de Portimão mas que morreu em 1916, quase sem ninguém notar que era algarvio. Essa carta foi datada para 2060 e com o número 2.420, um futuro que será sempre dos dois de Portimão, mas dificilmente será nosso – de quem escreve de quem lê. Aqui vai:

SMS 2420
Sombra, 27 de maio de 2060
Meu caro amigo Querubim Lapa:

Não lhe escrevo de Bougie, mas da Sombra onde o meu amigo teve a fineza de vir partilhar comigo, não um lugar reservado na tribuna, nem sequer numa fila da plateia onde se sentam os que se querem fazer notados a pretexto de notar, mas um lugar a que nos cinematógrafos do nosso tempo na Terra dávamos o nome de geral.

Você e eu, os dois nascidos em Portimão, estamos na sombra geral, e embora o meu amigo aqui tenha chegado muito depois de mim, já deve ter notado que, contrariamente ao que os iluminados pensam, quem está na Sombra apenas pode comunicar por escrito. Daí a minha ousadia de lhe enviar este postal. Sei que, quando você decidiu iniciar a viagem para esta Sombra, a 2 de maio (2016), ninguém na nossa comum terra natal o saudou, e muitos pelo Algarve fora, até desconheciam que um dos mais portentosos cultores e renovadores da Arte, conhecera, nas margens do Arade, a luz e as formas que inspiraram as suas obras de cerâmica. Comigo aconteceu mais ou menos o mesmo até aos ossos.

Muito embora aqui, na Sombra, já não tenhamos tempo para inquietação e muito menos angústia para coisas mundanas, os ecos de uma lembrança que de nós façam lá na Terra, chegam-nos a este lugar como o bater de ondas mansas nas primeiras horas do dia sobre a areia húmida.

Queria dizer ao meu amigo que foi de uma enorme injustiça, o atroz esquecimento de não lhe acenarem com um adeus, um adeus apenas que fosse, quando tomou o avião para esta Sombra – nos meus tempos era o vapor. Nada o poderá compensar, nem por certo quererá alguma compensação, mas espero que aceite uma partilha que lhe proponho, nesta gruta de fresquidão e de silêncio onde estamos: onde houver uma praça com o meu nome, dou-lhe metade da praça; onde exista uma rua, fico com metade e a outra metade é para si, Querubim Lapa; onde ergueram uma estátua ou um busto, contentar-me-ei com a parte literária, mesmo que esta fique reduzida a um risco para a memória visual se isso for necessário, para que, para o meu amigo, fique todo o volume e espaço onde a evocação da sua arte caiba.

Seu admirador e conterrâneo.
M.T.G.

Sobre o que “Norberto Lopes” prepara para o próximo 27 de maio e que será, por sequência, o apontamento SMS 2.421, datado para 2061, darei conta apenas daqui a um ano, em 2018, se o futuro for do presente. E se não for, paciência… será do pretérito, ou de mais uma alma algarvia.

Flagrante chamada de atenção: Desta sexta-feira até domingo, Teresa Rita Lopes é a convidada central de 2017 para o Festival Literário de Querença, o FLIQ, que tem como tema principal ”Exílio e Refugiados”. Não é que todos os caminhos vão dar a Querença, mas o certo é que Querença cada vez mais vai dar a mais caminhos.

Carlos Albino