Quem pode viver ao pé do mar?

OPINIÃO|VASCO CARDOSO

Com a aproximação das eleições autárquicas deixá-mos de ter notícias sobre as demolições na Ria Formosa. O assunto é incómodo. É incómodo para o PSD e CDS que durante os últimos anos desencadearam um processo que só a luta das populações e a derrota que tiveram nas eleições de Outubro de 2015 conseguiu deter. É incómodo para o PS que, depois de ter prometido antes dessas mesmas eleições, parar com as demolições e dar prioridade à requalificação daquele território, e depois de na Assembleia da República terem sido aprovadas várias recomendações ao governo apontando nessa direcção, a única coisa que concretizou até ao momento, foi a colocação de máquinas e de forças de segurança no terreno, para “limpar”, para já, cerca de 60 casas. Por mais voltas que se dê, por mais visitas e promessas que se façam, são as demolições que unem PS, PSD e CDS no mesmo objectivo.
Mas aquilo que torna ainda mais gritante esta situação é o facto dos mesmos argumentos que servem para avançar com a demolição de casas de gente pobre nas ilhas barreira da Ria Formosa, designadamente as preocupações de segurança e de protecção ambiental, já não se aplicar a moradias de luxo e outros empreendimentos que continuam a avançar por esse Algarve fora. É o caso da Praia da Galé (Oeste), no concelho de Albufeira, onde o Ministério do Ambiente já considera normal que se proceda ao loteamento e venda de terrenos para moradias (eventualmente de luxo) numa zona dunar de grande sensibilidade a escassos metros do mar, conforme confirmou na resposta enviada à pergunta que o Grupo Parlamentar do PCP apresentou na Assembleia da República recentemente.
Este será apenas mais um elemento que confirma a tese que há muito temos vindo a adiantar e que, paulatinamente, vai sendo cada vez mais compreendida por parte das populações: as demolições de casas, as crescentes limitações à actividade da pesca e marisqueio na Ria Formosa, a degradação e falta de investimento naqueles territórios, não decorre de pias preocupações com o desaparecimento dos “camaleões” ou com o perigo dos “tsunamis” como fomos ouvindo, mas antes, com o objectivo de expulsar as populações que ali vivem e trabalham, para entregar aquele enorme património aos grandes interesses do sector imobiliário e turístico.
Numa região marcada por muitos atentados e aberrações urbanísticas, onde durante anos tudo foi sendo permitido, exigem-se regras mais apertadas que protejam a paisagem natural e urbana, que respeitem as marcas da presença secular neste território, que salvaguardem necessidades de equipamentos e infra-estruturas colectivas – dos transportes aos serviços públicos -, que potenciem o aparelho produtivo e um turismo que tem bases sólidas na região. Mas esse percurso reclama uma outra política liberta dos interesses e das pressões daqueles que pensam que são donos disto tudo.

  • António

    Por mais que se escreva não é possível alterar a realidade conforme arbitrariamente nos dá jeito!
    Pergunte às pessoas da Culatra ,dos Hangares e do Farol!
    Deixe para o Dr Passos Coelho o monopólio dos diabos que ai vêm!
    Meter PS,PSD e CDS no mesmo saco,,na análise do tema em apreço,é querer distorcer a História da luta dessas pessoas.!