Manuel Neto dos Santos: SAFRA – Sublime Fantasia Poética

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“Aquilo a que suponho chama Crítica intuicionista não é para mim simples epiderme: implica o dom de intuição justa ou clarividente, ou fina – o que em meu entender é coisa rara, preciosa, nada superficial”
José Régio- 27-11-1968

A Antologia Poética – 1988-2008 – que Manuel Neto dos Santos reuniu e publicou na passada primavera de 2011 (num mecenato da Caixa Agrícola Messinense – S. Marcos), dando-lhe o título pleno “SAFRA”, está no contexto da mais sublime fantasia poética passada a livro, em autor algarvio, nesta primeira década do século XXI. São agora 238 páginas sem o bradejar latino, sendo mais próprio do bradi que se exprime do grego, na concentração da ideia pensada, elaborada, nesse imaginário, esse carácter exigido na pureza do elemento tratado em beleza, também na palavra construtora das civilizações.

Este poeta que se construiu já no ventre materno, sem o exigir de o ser, que em tudo nele está a sublime fantasia poética! O autor nem um momento se esquece de ser poeta, de ir confrontando o homem consigo mesmo: poeta de imagens e visão do mundo que em parte o aproximam ao poeta metafísico. Nele há a inclinação à angústia genética; há o canto à vida em preciosidade e fragilidade, tão natural desse peso permanentemente habitado pelo dom da infância que se construiu no poeta…

Saíram-lhe onze títulos publicados que vão d’O Fogo, a Luz e a Voz – 1998; De Deus a algazarra de Silêncios – 1996; Idílios de Al-Buhera-1996; Timbres-1999; Subsídios para a História da Poesia do Algarve séculos XI-XX-2000; Umabel, ou Anjo da Ilha Azul-2000; Ídola-2002; Versos de Redobre-2004.
Esta antologia poética de Manuel Neto dos Santos, safra, vem em linguagem e sociedade, num hiato de oito anos. É um tempo recente de criação poética-literária; também uma concepção de escrita-língua como instrumento de comunicação social, maleável e diversificado em todos os seus aspectos, meio de expressão que passa do indivíduo aos indivíduos que vivem em sociedade também diversificados no socio-cultural e, geograficamente, luso: Ó minha irmã polar, que te não vejo…/Ensina-me um quadrante sem ter mágoas/neste céu já bordado pelas estrelas.

No País de Amália (1992), bem poderíamos regressar aos fados: séculos XV dos algarvios, crescendo ao XVI, de todos os crescimentos, nesse enjambement: Novos mundos ao mundo: “Meteram-se os homens/cheirando a cabrum/por esse mar dentro…/sem uma rota exata./ Na praia ficaram as redes, e enxadas,/ e pelo azul vingaram;/medrosos, morenos…/ que a brisa, nas velas/ a História relata”. Não consta de barroquismo exacerbado, nele, o poeta do Al-Gharb, do Al-cantarilha é terra homem-mar, o que nos basta para entender o que fomos e no que somos…

Bem poderíamos levar a poesia de Manuel Neto dos Santos pel’O Fogo, a Luz e a Voz”, na voz doutros irmãos poetas. Poderíamos tomá-lo por companheiro da aventura, que escreveram sobre as tuas terras estranhas dos outros, abrindo-lhes caminhos de globalização, hoje assim chamada, nesses retratos de memórias dos nossos parentes de nomes plurais, mas de casta, como Henrique (o iniciador) como Vasco (o glorioso), como Pedro (o abastado da palavra lusa), queremo-los numa ideia de civilização, em que Cândido Guerreiro, João Lúcio ou, sobretudo, Emiliano da Costa, os maiores contadores na poética algarvia das descobertas nos deixaram, e hoje arrumados nas estantes de esquecimento regionalista, em poética escrita das navegações: um luxo lexical, que, com Manuel Neto dos Santos, carecem nas nossas escolas…

O século XX algarvio que ultimatum inglês do fim do século XIX deu força aos bacharéis da honra portuguesa retomada de rompão. A crise social política em que o país mergulhara, viera criar condições para um novo messianismo, desta vez de cariz político: a era do messianismo republicano. Um messianismo formatado e controlado, dominado pela corrente materialista do positivismo. Era o tempo de renascer glorioso dos arautos heróis do colonialismo, em vestes gloriosas das descobertas, com inscrições na loja Redenção maçónica. O MEU ALGARVE (1905), de Lúcio assim veio: Que marinheiros há que mais capazes/duma epopeia erguer no dorso dos navios?! Que outra raça de pescadores audazes/heróicos como são os bravos algarvios. Promontório sacro (1930), de Cândido: Senhor, para memória deste dia/trago-vos estas ervas-tão viçosas/como se eu acabasse de colhê-las/ Que lindo nome têm! Santa Maria…/ Dignai-vos, meu Senhor, de recebê-las (…) Para  que as ondas digam aos navios/ Pertence este caminho aos portugueses/ e foi aberto pelos algarvios. Cromo-sinfonias (1948), de Emiliano, tem o naturalismo do interesse e da denúncia possível para os anos da intolerância do século XX, em vésperas comemorativa do quinto centenário do nascimento do Infante D. Henrique, pelo Algarve. O poeta-médico veio barlaventejar em ousadia: Lastro humano de escravos, dor, pilhagem,/ vento a zunir, que o vento é chicote,/ e as caravelas, as do Laçarote (…) Sobre aquela casaria lá estão eles / os pinheiros escravos, desgraçados/ no mais nefenado e negro dos mercados (…) Escravos… Adentro num recinto/ fechados em alcaria, lá estão eles/negros a sussurrar num lavarinto/E vão comprá-los, estes, mais aqueles,/ e até o Infante a receber o quinto…


Assim, e nessa comparação do poema histórico em que o cultivismo e o conceptismo se fundem na mesma atitude do tempo, numa atitude puramente lúdica em que a vida se exprime. Tanto em Lúcio como em Cândido, encontramos o tempo em trânsito de Emiliano para o realismo crítico e social na poesia. Manuel, estando na construção tradicional da poesia algarvia que remonta ao início do segundo milénio da era cristã, não renega os seus pares. Mas o poeta está no seu tempo. O século XX passou por todas as metamorfoses poéticas, e o Algarve teve nelas algumas responsabilidades, em cultores diversos: desde o Futurismo, em que Faro puxou Lisboa, com Fernando Pessoa, Carlos Porfírio, Augusto Lyster Franco, Almada Negreiros e todos os heterónimos e pseudónimos em bisexo, em que o travestir valorizava os géneros.


Para esse génio, irmão de Alberto Caeiro, que proclamava: Sejamos simples e calmos/ como regatos e as árvores.
Pelos tempos em que o imoto foi exigido, senão punido, nada demoveu os cultores algarvios. Até que o grito em novidade cultural, que foi a meio do século XX, um grito claro, de novo, ecoa a partir de Faro, com António Ramos Rosa, em largos horizontes, para além das fronteiras geográficas e do tempo.


Pretendo livrar Manuel Neto dos Santos de quaisquer lojas culturais. Ele, o poeta, sendo do seu tempo, sem capelinha, sem protecção, está com João de Deus no século XIX, como António Aleixo, como António Ramos Rosa para XX; poetas a tempo inteiro, seguindo a temporalidade, e, que, como eles, Manuel se alimenta, respira, sofre pela poesia. Uma figura culta que muito se enriquece para uma herança futura, sem débito, na conta da história cultural em que nos projectamos.

  Teodomiro Neto