JOSÉ COUTO

 Tavira – Paraíso perdido

Tomei de empréstimo o título do poema épico de John Milton para expressar o sentimento que hoje me assola ao pensar na minha amada cidade de Tavira. Aqui há uns anos a cidade era elogiada pela variada oferta cultural (música, teatro, literatura, artes plásticas e, sobretudo, cinema) e pelo sossego que proporcionava aos seus habitantes e visitantes. E agora? Agora temos um cineclube moribundo que, sem apoios, nem consegue realizar as famosas mostras de cinema europeu e não europeu no claustro do Convento do Carmo que animavam os serões quentes de Julho e Agosto e consti-tuíam motivo de orgulho dos tavirenses… Agora temos uma discoteca (Wonderful beach club), que desde finais de Julho, noite sim noite sim, entre a 1 e as 6 da manhã, debita violentos decibéis que impedem as pessoas de dormir e descansar… Um verdadeiro inferno! E se o primeiro exemplo me deixa desgostoso, pela perda que representa, já o segundo me deixa furioso, uma vez que perturba o meu bem-estar e prejudica a minha saúde (bem como os da minha família)! Num Estado civilizado não há cidadãos de primeira e de segunda, mas no nosso, que não o é, sim! Aqui, temos cidadãos comuns, como eu, que não podem fazer (e bem) ruído que perturbe os vizinhos depois das 10 da noite; e temos cidadãos privilegiados, como a “Dona Maya”, que podem fazê-lo (e mal), em área semi-aberta e de forma estratosférica, não só depois da 10 como até às 6 da madrugada! A PSP diz-me que não pode fazer nada, porque a dita está licenciada pelo executivo camarário! É caso para questionar, como o faz Slavoj Zizek: “o que são os assaltos que violam a lei comparados com os assaltos que têm lugar dentro da lei?”… Poucos anos depois de Paraíso Perdido, Milton publicou Paraíso Recuperado… Analogamente, espero que alguém, muito em breve, resgate Tavira da perdição em que caiu…