FERNANDO REIS

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A Troika, Portugal e a Irlanda

Empenhado numa estratégia que nos pretende convencer da inevitabilidade da pesadíssima austeridade que impuseram à classe média e ao povo – como se näo houvesse outro caminho menos penoso para resolvermos a crise – o governo quer fazer-nos crer, agora, que o país já retomou o caminho do crescimento e que os cortes feitos nos vencimentos dos funcionários públicos e dos pensionistas, até foram inferiores aos que aconteceram na Irlanda, outro dos países resgatados pela Troika, que acaba de recuperar a sua autonomia política e financeira.

É óbvio que este paralelismo com o exemplo irlandês, aparentemente bem sucedido, na forma como o país foi intervencionado, visa convencer-nos que os sacrifícios que estamos a fazer não são em vão, porque também os irlandeses os fizeram e, agora, está à vista que valeu a pena. Uma analogia que assenta numa falsa permissa, pois Portugal e a Irlanda são duas realidades muito diferentes. Mesmo depois da intervenção da Troika, a Irlanda tem um ordenado mínimo de 1500¤ e continua com uma dinâmica económica, que está a proporcionar emprego a muitos jovens portugueses, enquanto o ordenado mínimo em Portugal é de 485¤ e cada vez é maior o número de portugueses forçados à emigração.

Como dizia um jovem português, imigrante na Irlanda, ouvido por um canal de televisão português, é que, com a intervenção da Troika, os irlandeses, que viviam muito bem, passaram a viver bem e os portugueses, que viviam mal, passaram a viver muito pior.

Se efetivamente, o governo estivesse interessado em seguir o modelo irlandês, como uma referência efetiva de um país que quer caminhar de forma autónoma, sem as muletas da Troika e sem qualquer programa cautelar, não tinha ido, como foi, além da Troika, na política de austeridade, que lançou o país na miséria e condenou milhares de pessoas à pobreza extrema.

A grande diferença, já que estamos em matéria de analogias entre os dois países, é que antes de terem aderido ambos, à Comunidade Europeia – a Irlanda entrou em 1973 e Portugal em 1986 – eram os dois pobres, mais a Irlanda do que Portugal. De lá para cá, a Irlanda cresceu. Ficou mais rica e Portugal, com mais do dobro de habitantes e igualmente bons recursos, liquidou a sua base económica.

Hoje a Irlanda continua a alavancar a sua economia na indústria e a contar com a agricultura, a pecuária e as pescas.

Portugal, ao invés, pela mão daqueles que defendem que vivemos acima das nossas possibilidades, fomentou o abandono dos campos e a liquidação das pescas e, hoje, é este o país que temos!