FERNANDO REIS

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“Cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis”

Numa altura em que, por força da austeridade que nos é imposta, há cada vez mais pobres em Portugal – provavelmente o seu número já ultrapassa os dois milhões – um relatório do banco suíço UBS, agora divulgado, conclui que existem em Portugal mais 85 milionários do que em 2012 – indivíduos com fortunas superiores a 22,4 milhões de euros. Somando estes novos multimilionários, aos 785 contabilizados o ano passado, a fortuna acumulada por esta gente, aumentou, apesar da crise, 7,5 mil milhões de euros, totalizando agora 75 mil milhões.

Se tivermos em conta que, também, na Grécia, outro dos países sob intervenção da Troika, a fortuna dos mais ricos cresceu dos 50 para os 60 mil milhões de euros, fica evidente, para quem ainda tivesse dúvidas, que o enriquecimento de uns poucos é proporcional ao aumento da miséria e da pobreza, de muitos.

Já dizia Almeida Garret, que “cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis” e o escritor moçambicano Mia Couto, que “a maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos.”

Após dois anos e meio de intervenção da Troika, de tanta austeridade e sacrifícios impostos ao povo, é esta a realidade portuguesa; mais 300 mil desempregados, 350 pessoas a emigrarem diariamente, mais fome e miséria, um PIB que vale menos 6% e um déficit que continua incontrolável, enquanto os mais ricos, que são poupados a sacrifícios, engordam com a crise e vão levando o dinheiro para fora do país.

Pela sua atualidade, deixamos aqui o pensamento do grande escritor Almeida Garret que, de forma magistral, via já na sociedade portuguesa do século XIX, os mesmos defeitos, desigualdades e injustiças, que ainda hoje imperam.

Mudaram os tempos, a ditadura deu lugar à democracia, mas não mudaram as mentalidades dos nossos governantes, nem dos grandes senhores!

Mais umas poucas dúzias de homens ricos

 

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? – Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis. 

 

Almeida Garrett (1799-1854) in ‘Viagens na minha Terra’