Em Armação de Pêra, com os olhos cheios de mar

OPINIÃO | JOÃO CABRITA

Volvo a Séneca, adaptando-o, “Ninguém ama a sua terra por ser grande, mas por ser sua”. E tudo o que lhe diz respeito é também nosso. Têmo-la entranhada nas nossas vivências. Longe da nossa terra, gostamos de ter notícias. Lêmo-las, apreciamo-las em silêncio, quantas vezes compartilhadas em tons de entusiasmo, sendo capazes de pronunciar uma crítica, uma censura ou um reparo. Ruborizamos de forma incontida, dando largas ao que nos interioriza.
Em época estival é maior a recordação da nossa terra: Armação de Pêra. Aí regressamos sempre que possível. Hoje é a memória do que lá vivemos. São poucos os contactos com pessoas e lugares. Trazemos sempre no pensamento tempos vividos, amigos que ficam e partiram, ruas que já não estão, mas que nos pertencem. O homem adulto, de agora, percorre tudo o que a escassez de uma visita lhe proporciona, ousando pedir ao tempo o seu retorno, como se a cronologia inexorável se revertesse e fosse possível tornar os homens velhos em novos ou lhe fosse possível atribuir um espírito jovem. O complexo de Fausto a latejar na mente de cada um de nós, recusando, muitas vezes, o avanço infindável dos dias.
Armação de Pêra, notícia por muitos motivos, nem sempre pelas melhores razões: aí cabe a disputa de um lugar na praia ou a invasão dos mosquitos. Desta vez, são cerca de 320 páginas de um livro que constituem a biografia mais completa sobre esta vila costeira que não se cansa de crescer, pese embora as apreciações nada favoráveis à construção utilizada.
Com uma classificação, que foge aos cânones literários, de romance etnográfico, Augusta Inácio, graças a um trabalho de investigação, muito louvável, tributa-nos em Armação de Pêra, com os olhos cheios de mar, em edição da Colibri. Um texto notável. Uma metáfora eivada de lirismo que nos convida à leitura. E tal como a autora que escreveu para pôr em letra de forma, ordenada, coisas, ideias e sensações, o leitor atento, produto desta terra, leu, leu, como se quisesse saciar-se e recuperar momentos de ausência a que a sua vida diversa o obrigou a sair. E por cá ficaram os que a tornaram vila.
Muitas páginas, complementadas com cerca de sete dezenas de fotografias, a recordar gentes e histórias, o que só foi possível graças a um trabalho invulgar, levado a cabo através de investigação árdua, onde não faltou a entrevista a pessoas que da “terra” conhecem-na na perfeição. São cerca de vinte e nove os interlocutores, devidamente identificados.
Gente desaparecida há muito, vive nas páginas do livro, como se fosse hoje. Cronologicamente repartido pelo período que vai dos anos 30 a 60 e dos anos 70 a 90, a divisão é criteriosamente ordenada e titulada, permitindo ao leitor, mesmo que à leitura não seja muito dado, folhear o livro, adaptando-o ao critério que lhe aprouver. As referências divididas em 19 partes, são um auxiliar para quem quer saber e conviver com Armação durante muito tempo.
Aliando a ficção à realidade, com um acontecimento que muitos lamentaram, o incêndio da Igreja em Agosto de 2014, inicia-se um processo de escrita, conduzido por personagens com as quais nos vamos familiarizando. E Armação vai aparecendo aos nossos olhos, vista e vivida em momentos recuperados por uma escrita muito simples, acessível ao comum dos leitores, com notas de rodapé a esclarecer os menos conhecedores da terra. Um discurso caudaloso, rico, variado, prende o leitor ao ponto de o tornar, também, personagem de uma narrativa que tem como foco principal Armação de Pêra.
Personagens imaginadas cruzam-se com gente vivida, do conhecimento de todos. Um convívio que apraz e que transporta para o palco da escrita, uma Armação que não sendo velha, salta para o palco da ribalta da memória, recordando-se no seu crescimento. Com efeito, quem conhece unicamente o presente, torna-se profundamente ignorante desconhecendo as virtualidades de um passado, e um povo sem passado é algo sem dimensão e importância. Da história e do seu passado, ressaltam as datas de 1571, ano da construção da Fortaleza, 1720, a construção da Capela de Santo António e 14 de Julho de 1559 o primeiro registo sobre Armação de Pêra. Para quem deseja saber mais, muito encontrará na cronologia armacenense. Um manancial de informação enriquecido por um trabalho digno, que estava por fazer.
E a nossa vida que está sempre por completar, o nativo armacenense ou o amigo de Armação colherá neste livro, muito do que necessita para se documentar e completar. Um livro que para além de se intitular romance, é um texto onde o rigor se perfila como timbre.
Em Armação balbuciámos as primeiras palavras e ouvimos os primeiros sons em línguas diferentes. Aprendemos a pronunciá-los. Poucos os dominavam. Os tempos eram outros. Da escola primária de então, saíram os pescadores, os homens e as mulheres valorosos que construíram o edifício armacenense e que esperaram serenamente que melhores condições de vida fossem proporcionadas. A autora porfiou e descobriu o que a voracidade do esquecimento já tinha enclausurado e nesta hora, neste momento, onde os limites não têm contornos, não faltam pessoas que de forma icónica tornaram Armação um local aprazível, hospitaleiro e acolhedor. Uns, cujo nome perdura, outros, anónimos, habitantes do inconsciente de cada um de nós.
O Chico Coelho, que acendia o farol da Fortaleza e acendia os candeeiros da aldeia, elevada a vila a 20 de Junho de 1991, o Alvarinho, mestre de cerimónias, muito estimado e apreciado pelas senhoras que não regateavam um elogio do Álvaro Duarte, cujo nome agora conhecemos pelas contadora destas histórias de Armação, a ti Gertrudes Nicolau que cozia umas óptimas batatas doces, ali junto à praia, frequentada pelos mais madrugadores. Figuras humildes lembrando tempos de despreocupação, com a praia a fazer parte das nossas vidas. O mundo era aquela nossa aldeia, ou conforme Gedeão, “a minha aldeia é todo o mundo. Figuras gradas habitavam Armação, O sr. Eurico, que durante muito tempo dava notícias para o Jornal do Algarve, o Manuel Franco, o José Lapa, o Dr. António Pereira, o João Roque, da Preferida, grande artista de sapatos, o armazém do “Zé de Reis”, local onde se realizavam as récitas e onde se angariou algum dinheiro para a construção da Igreja, graças ao dinamismo da D. Elisa Gomes, mãe do Coronel Joaquim dos Santos Gomes que ofereceu as duas conchas que se encontram na Igreja da Nossa Senhora dos Navegantes.
Em terra de praia, visitada por estrangeiros, não admira que não houvesse quem se orgulhasse das suas actividades seminais: o José Emídio, contou-as muitas e outras ficaram por contar. Satisfez em pleno os três SSS para quem do Norte da Europa, o procurava.
Terra de mar, encostada à terra que vai ocupando alguns lavradores que buscam rendimento escasso. Não faltam figos e amêndoas que preenchem os fumeiros onde trabalham, sobretudo, mulheres oriundas de Pêra, Alcantarilha e Armação. A Deolinda vende figos, laranjas e fruta da época. Lucília Lima, interrogada pela autora, afirma que as peras engasgas eram comidas cozidas. O signatário comeu-as em quantidade apreciável, cruas. Nunca mais as vimos. Até as peras engasgas desapareceram da nossa existência!!!
Anos de docência em Armação, investigando muito, misturada com o povo, autonomizando-se como produtora de escrita, a criar o mais belo e mais bem informado livro escrito sobre Armação de Pêra, e quiçá, de uma terra algarvia. Um livro que dignifica quem o escreveu e engrandece a terra, objecto da escrita.
Entusiasmados, corremos ao encontro da autora. Com a razão a suster a emoção, dialogámos até nos esquecermos, com o mar ao fundo, em dia de sol e de muita praia. Recuámos no tempo, como se as nossas vivências se cruzassem, lembrando que o presente vivido é mais valorizado quando nos lembramos de um passado tenazmente conseguido. Terminámos, lembrando Alexandre O´Neil, prometendo que outros assuntos alimentariam as nossas vidas.
Mal nos conhecemos/Imaginámos a palavra amigo
Razão de ser deste texto, que não sendo ditirâmbico, não escapou à subjectividade e emoção de quem o escreveu. Neste momento último, com a terra dentro de nós, arrumado o livro, apetece-nos terminar afirmando, em uníssono, com a personagem Mariana, a partir desta janela que nos distancia:
É mais fácil sair da terra onde nascemos do que essa terra sair de nós.

João Cabrita

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