Desde Vila Real de Sto António ao sudeste asiático em três meses

Rui Roque, Bruno Machado, Mateus Carvalho (em baixo) e Duarte Drago junto ao templo Angkor Wat, no Camboja

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Viagem começou com um Peugeot 205, quase a cumprir os 30 anos, mas teve que continuar com recurso a comboios, autocarros, barcos e, até, bicicletas, já que o carro acabou por ficar retido no Irão. Os jovens vila-realenses que partiram para uma aventura que os levou até ao Vietname estão de volta e contam algumas das muitas histórias que foram acontecendo ao longo de cerca de 30 mil quilómetros

DOMINGOS VIEGAS

Mateus Carvalho e Bruno Machado, dois jovens vila-realenses de 25 anos, decidiram atravessar toda a Europa e a Ásia, numa viagem que os levou até ao Vietname, no sudeste asiático. A ideia inicial era fazer toda esta aventura num Peugeot 205, com quase 30 anos, mas o carro acabou retido pelas autoridades iranianas, depois de 15 mil quilómetros percorridos.

Porém, aquele contratempo não os fez desistir. A partir daí, fizeram outros 15 mil quilómetros viajando de autocarro, de comboio, de barco e até de bicicleta. Na Índia juntou-se a eles outro vila-realense, Duarte Drago, de 24 anos. Mais tarde, e quando os três aventureiros chegaram à Tailândia, tiveram a companhia de Rui Roque, de 22 anos, outro jovem de Vila Real de Santo António que ainda foi a tempo de percorrer os últimos três países da viagem.

Os dois jovens que partiram da Península Ibérica (Bruno Machado juntou-se a Mateus Carvalho em Barcelona) estiveram em viagem três meses, desde o final de abril até ao final de julho deste ano. Uma aventura que surgiu de um desafio lançado por Mateus Carvalho, que não se sentia muito seduzido com a ideia de fazer uma viagem comprando um bilhete de avião e aterrando num país longínquo.

“Comecei a pensar que tinha que fazer uma viagem que me marcasse para o resto da vida. Sempre tive vontade de conhecer o Vietname e, de repente, lembrei-me: porque não fazer a viagem desde Vila Real de Santo António e de carro?”, explica. Pensou e não perdeu muito tempo. Procurou um automóvel barato, em segunda mão, e encontrou um Peugeot 205 de 1989, por 100 euros. Depois, foi só lançar o repto a alguns amigos.

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Bruno Machado foi o primeiro a aceitar: “A ideia veio mesmo a calhar, porque estava à espera de fazer uma viagem destas. Nem pensei duas vezes e comecei logo a tratar dos vistos”. Duarte Drago também gostou da ideia, mas não pôde fazer a viagem completa: “Não tinha independência financeira e os meus pais, quando viram a lista de países por onde pensávamos passar, disseram logo que não iriam colaborar e que se quisesse ir teria que ser por minha conta. Por isso só apanhei a viagem a meio. E porque consegui encontrar um voo baratíssimo para a Índia, quando eles já lá estavam”.

Havia quem pensasse que com aquele Peugeot 205, com quase três décadas, nem sequer conseguiriam sair da Península Ibérica. Mas Mateus Carvalho e Bruno Machado provaram o contrário. Poucos dias depois da partida já tinham atravessado praticamente toda a Europa e estavam na parte asiática da Turquia.

“Quando saímos da Europa já estávamos fartos de ver igrejas. Os países da Europa são todos diferentes, mas, ao mesmo tempo, também são muito idênticos. É sempre mais do mesmo”, conta Bruno Machado.

Na Turquia com o Daesh no outro lado da fronteira

A verdadeira aventura começou precisamente na Turquia, país que tiveram que percorrer de oeste a leste para chegar até à fronteira com o Irão. Foi esta parte da viagem que consideram a mais perigosa, já que o percurso foi feito pelo sul do país, junto à fronteira com o norte da Síria e do Iraque, zonas daqueles dois países que continuam ocupadas pelo Estado Islâmico (Daesh).

A proximidade com aquelas zonas ocupadas, a guerra da Síria e o conflito com os curdos do PKK faz com que o exército turco tenha muitos postos de paragem obrigatória, para controlo de documentação. “Os militares diziam-nos que havia anos que não viam turistas por ali. Os únicos estrangeiros que passavam por lá eram jornalistas. De três em três quilómetros havia militares a apontar-nos uma arma e a pedir o passaporte”, recorda Bruno Machado.

“Estávamos num lado da fronteira, com os turcos, e no outro lado estava o Daesh, nas zonas ocupadas do norte do Iraque e da Síria. Havia tanques a passar de cinco em cinco minutos. Não foi nada programado e só escolhemos aquele caminho porque nos diziam que era a melhor forma para chegar à fronteira com o Irão. Não foi com o objetivo de passar por uma zona em conflito. Acabámos por ver só ruínas, cidades destruídas, alguns campos de refugiados… Foi a parte da viagem que me marcou mais”, acrescenta.

Mateus Carvalho conta que foram obrigados a apagar as fotografias que tinham feito até àquela altura e que os militares chegaram a fazer chamadas para os contactos dos seus telemóveis: “Um dos oficiais turcos sentou-se em cima do capô do nosso carro, com o pé em cima do para-choques, a fumar um charuto. Pegou num dos nossos telemóveis, viu que havia uma chamada recente, que tínhamos feito para uma rapariga que nos acompanhou desde Istambul até à Capadócia, e ligou-lhe. Foi ela que lhe confirmou o que estávamos ali a fazer”.

Uma das noites acabou por ter que ser passada na cidade turca de Sirnak, na zona das três fronteiras (Turquia, Síria e Iraque), por precaução: “Queríamos chegar o mais rápido possível ao Irão, mas os turcos avisaram-nos que era melhor não continuar a viagem naquele dia e passar ali a próxima noite, ainda na Turquia. Vimos muita destruição e ficámos no único hotel que estava a funcionar”, explica Bruno Machado.

Irão: “um país seguro” e de “gente amável”

Saíram no dia seguinte, pela manhã, por uma estrada entre vales e montanhas que os levou, finalmente, até à fronteira com o Irão. “De Sirnak até à fronteira com o Irão são cerca de 300 quilómetros. Avisaram-nos logo que não podíamos parar para ver paisagens ou fazer fotografias. Tinha que ser sempre a andar. Mesmo assim demorámos um dia inteiro porque a estrada era muito complicada”, conta Mateus Carvalho.

A chegada ao Irão ficou marcada por uma situação que acabaria por alterar todos os planos iniciais da viagem, já que os dois jovens tiveram que se despedir do velho Peugeot 205. Tinham tratado dos vistos pessoais, mas não sabiam que era necessário um documento especial para que a viatura entrasse naquele país.

No Peugeot 205, pouco antes de ter ficado retido no Irão

“Primeiro não se podia entrar com o carro, mas no outro dia começaram a pedir cauções para resolver a situação. Queriam mil euros e diziam que devolviam o dinheiro quando saíssemos do país. Gastaríamos menos dinheiro se passássemos a usar outros transportes e, ainda por cima, tinha comprado o carro por 100 euros… Acabámos por deixa-lo lá. Tirei-lhe a matrícula, fechei-o, trouxe a chave e ficou na fronteira. Ainda devem estar à espera que eu o vá buscar”, relata Mateus Carvalho.

Mas as dificuldades não ficaram por aqui, tal como conta Bruno Machado: “Foi muito complicado comunicar, porque os iranianos, de uma forma geral, não falam inglês. A internet é muito limitada. Os motores de busca de hotéis não funcionam e para encontrar alojamento tinha que ser através do ‘Google’. Há muita burocracia. Não conseguimos usar as caixas multibanco…”.

Ainda no Irão, conheceram uma professora de inglês que os convidou a assistir a uma aula. Esta foi outra das experiências que os surpreendeu, não só por ser uma turma só de raparigas mas também pela forma como estas encaravam determinados assuntos.
“A professora escolheu para aquela aula o tema do amor. Foi impressionante ver a forma como elas encaravam o assunto, que é quase um tabu naquele país. Ficaram muito envergonhadas. E as que falavam chegaram a dizer que não acreditavam no amor”, conta Mateus Carvalho.

“Penso que a professora quis mostrar-nos o contraste, ou seja, para que pudéssemos ver a diferença entre falar daqueles temas numa escola da Europa e lá. Estamos a falar de um país onde há muitas raparigas que vivem muito aprisionadas na família. Algumas não podem sair com um rapaz se não estiverem casadas com ele”, acrescenta Bruno Machado. “O contacto físico, mesmo em termos de amizade, é praticamente impensável. Uma rapariga ficou completamente horrorizada quando lhe tentei dar um abraço de despedida e agradecer umas garrafas de água”, recorda Mateus Carvalho.

Apesar de todas estas situações, os dois jovens saíram do Irão com uma boa imagem do país: “É um país cheio de História e de Cultura. E é um país de boa gente. As pessoas são muito amáveis”, considera Mateus Carvalho. Bruno Machado garante ainda que “ao contrário do que se possa pensar, o Irão é um país muito seguro”.

De comboio na Índia e um corte de cabelo por 50 cêntimos

Com o velhinho Peugeot 205 retido no Irão, o resto do percurso teve que ser feito de comboio, de autocarro, de barco e, algumas vezes, até de bicicleta. Foram mais 15 mil quilómetros. Na Índia a viagem passou a ser feita a três, já que, a partir daquele país, aqueles dois jovens passaram a ter a companhia de Duarte Drago, de 24 anos.

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E a Índia foi o país onde estiveram mais tempo, cerca de duas semanas, não só por terem ficado deslumbrados com a cultura e com a população local, mas também por culpa de uma moeda que os acompanhou deste o início da viagem e que ia marcando o destino. É que a rota traçada inicialmente apenas serviu para solicitar os vistos antes da partida. Na prática, o percurso foi sendo definido mediante a decisão da moeda ao ar. Ficar mais algum dia numa cidade ou seguir determinado caminho era resolvido, muitas vezes, à sorte.

“Era tudo decidido em cima da hora. A moeda servia para quase tudo e levou-nos a sítios muito interessantes. Era também uma forma de não haver discussões quando tínhamos ideias diferentes”, explica Duarte Drago.

Assim que chegaram à Índia, aproveitaram para cortar o cabelo. Um corte, numa barbearia improvisada na rua, custou 50 cêntimos a cada um. As refeições não eram muito mais caras. “Uma refeição completa rondava os 80 cêntimos”, conta Duarte Drago. “Mas uma cerveja custava seis euros!!”, acrescenta Bruno Machado.

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Na Índia, a maioria dos trajetos foi efetuada de comboio. Mateus Carvalho recorda uma dessas viagens, no norte do país, entre Agra, cidade do Taj Mahal, e a cidade sagrada de Varanasi: “Foram doze horas num comboio completamente lotado. Eu deitado em cima de malas, o Duarte com metade do corpo de fora do comboio e o Machado com bebés ao colo. Foi impressionante”.

Duarte Drago diz que as duas semanas que passaram na Índia foram mais do que suficientes para superar as suas expectativas: “Nunca pensei que me surpreendesse tanto. Quando saí da Índia já estava um pouco saturado e com vontade de voltar a um país mais ocidentalizado, mas depois, olhando para trás, considero que foi o país que mais me marcou ao longo de toda a viagem. Não encontrámos nada igual, nem sequer ao nível da interação com as pessoas”.

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Finalmente, o sudeste asiático

Depois da passagem pelo Nepal e de mais alguns milhares de quilómetros rumo à fase final da aventura, chegaram ao sudeste asiático, onde visitaram, entre outros, países como o Camboja, a Tailândia e, o destino final inicialmente traçado: o Vietname. Nesta fase da viagem juntou-se aos, até então, três jovens, Rui Roque, de 22 anos, que ainda foi a tempo de efetuar os últimos percursos.

Mateus Carvalho admite que o primeiro impacto ao chegar ao Vietname foi de desilusão: “Fiquei muito desiludido. Pensava que era um país com muito mais por explorar, mas apercebi-me rapidamente que já é um país muito turístico. E também é muito mais difícil interagir com a população local”.

Porém, os trajetos efetuados dentro do país acabaram por compensar um pouco esta ideia inicial. “Conseguimos encontrar alguns locais do Vietname que ainda não estão muito virados para o turismo e onde se mantêm muitos traços tradicionais. É um país riquíssimo nesse aspeto, principalmente a zona norte. Também fiquei surpreendido com o Camboja. Mas a Tailândia é muito turístico. Já sabia, mas ao vivo é ainda pior. Muito mais do que o Vietname. Sair da Índia e chegar à Tailândia é um choque, ficamos com vontade de voltar para trás. São polos opostos”, considera Duarte Drago.

“Não senti tanto esse choque cultural, porque só me juntei a eles já na Tailândia. Mas acabou por ser uma experiência extraordinária”, diz Rui Roque. “No sudeste asiático acabámos por ver aquelas coisas mais turísticas, que são obrigatórias. Além disso, tentámos fugir um pouco dessas zonas, visitámos zonas com imensos campos de arroz… Tentámos perceber como é que aquelas populações vive o seu dia a dia e como é que eles são verdadeiramente”, acrescenta Bruno Machado.

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Uma viagem relativamente barata

Quem pensa que uma aventura deste tipo pode ter custado uma fortuna está completamente enganado. Tendo em conta a quantidade de países visitados, os cerca de três meses a viajar e as experiências vividas, a viagem até acabou por ser relativamente barata. O truque: evitar ao máximo zonas turísticas, onde os preços são muito mais altos do que a realidade de cada país.

Estes jovens explicam que o principal problema em termos de preços “foi na Europa”. A partir daí, o gasto diário fixou-se entre os 10 e os 15 euros, um valor que já inclui alojamento, refeições, transportes e visitas a monumentos. O preço médio de cada refeição, no percurso feito na Ásia, foi de pouco mais de 2 euros e o alojamento variava entre os 2 e os 6 euros, com este último a representar o valor máximo pago por cada um e que já incluía pequeno almoço.

Mesmo assim, os jovens garantem que teriam conseguido poupar ainda mais se não tivesse visitado alguns dos locais turísticos de passagem quase obrigatória para quem se desloca a alguns daqueles países.

“Gostávamos que esta nossa viagem também servisse de incentivo e de inspiração para aquelas pessoas que pensam que não é possível fazer uma viagem destas a baixo custo. A experiência que tivemos, comparada com o que gastámos, é uma coisa brutal”, considera Duarte Drago.

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Este jovem, que terminou recentemente a sua formação universitária, considera que “são oportunidades que os jovens estão a perder, porque mais tarde vai ser ainda mais complicado” e conta que os amigos que contactavam com eles, durante a viagem, através das redes sociais, ficavam “embasbacados” com o valor dos gastos diários.

“Um jovem que vai trabalhar um ou dois meses no verão para comprar um telemóvel topo de gama, para beber umas cervejas ou para comprar uns maços de tabaco, pode perfeitamente fazer uma viagem destas se optar por guardar o dinheiro. Porque chega perfeitamente”, assegura.

Estes jovens vila-realenses estão de regresso, mas já estão a fazer contas de cabeça para uma próxima aventura. “Queremos fazer uma viagem do mesmo género, mas na América do Sul. É isso não é?”, questiona Mateus Carvalho. “Na América, sim. Logo se vê se será só a América do Sul, porque não nos queremos prender por um único continente”, responde, de seguida, Bruno Machado.

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(Reportagem publicada no suplemento JA Magazine, integrado na edição impressa e semanal do Jornal do Algarve de 31/08/2017)

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