Carlos Gracias: “Algarve já produz mais de um milhão de garrafas de vinho”

Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve ao JA:

Carlos Gracias chegou à CVA em 2010, quando existiam apenas 16 produtores certificados na região (5 mil hectolitros por ano). Hoje, existem 35 produtores que chegam aos 12 mil hectolitros

Em 2010, existiam 16 produtores certificados no Algarve e entravam no mercado 500 mil litros de vinho. Atualmente, esse número mais que duplicou, com 35 produtores certificados e 1,2 milhões de litros. No ano passado, foi mesmo ultrapassada pela primeira vez a fasquia da produção de 1 milhão de garrafas. Carlos Gracias, presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), explica ao JA como é que “os vinhos do Algarve têm vindo a conquistar um lugar no mundo dos vinhos”. “Todos os anos, são galardoados mais de 50 vinhos da região em concursos nacionais e internacionais”. É “o renascer de uma região” que produz vinhos “únicos, elegantes e fáceis de beber”

 

 

Jornal do Algarve – As vindimas já arrancaram na região. Quais são as previsões para a produção de vinho este ano, em termos de quantidade e qualidade?
Carlos Gracias – O inverno e a primavera caracterizaram-se por uma baixa pluviosidade e alguma humidade relativa, conduzindo a um bom desenvolvimento vegetativo das videiras. O rendimento da uva poderá cifrar-se entre os 65% a 75%. Atendendo às características apresentadas pelas uvas e seu estado sanitário, prevemos uma colheita de vinho de boa qualidade e apontamos para um aumento da produção na ordem dos 20%, podendo fixar-se nos 12.000 hectolitros de vinho (1,2 milhões de litros).

J.A. – A seca que afeta a região vai ter influência na produção, devido ao tempo seco e quente? Porquê?
C.G. – Efetivamente, as condições ambientais obrigaram os produtores a anteciparem as vindimas. As altas temperaturas ocorridas no mês de julho aceleraram a maturação das uvas. É fundamental para a obtenção de vinhos de qualidade que preservem e potenciem as caraterísticas naturais das castas, sejam elas mais frutadas ou mais florais.

J.A. – A tecnologia está cada vez mais presente na produção de vinho. Considera a tecnologia uma vantagem ao serviço da produção do vinho? Porquê?
C.G. – Exista uma alta tecnologia associada à produção do vinho. Esta vai desde a vinha ao vinho e tem sido, provavelmente, o fator que mais contribuiu para a melhoria da qualidade do vinho. Para dar alguns exemplos, podemos falar no desenvolvimento de produtos fitossanitários para proteção da vinha, o estudo e utilização de leveduras para controlo da fermentação dos mostos, a produção de barricas (tanoaria) cuja matéria-prima (madeira) passa por um processo produtivo de alta tecnologia no controlo das florestas, até à produção das rolhas em cortiça ou mesmo na produção do vidro (garrafas) e dos rótulos (gráficas e design). Destacava ainda o know-how adquirido e colocado ao serviço da produção, nomeadamente a competência dos enólogos que trabalham na região, alguns deles reconhecidos internacionalmente e também o saber acumulado por várias campanhas que permitem aos produtores ter um bom conhecimento do “terroir” algarvio. Como se pode constatar, temos um conjunto complexo de atividades associadas ao vinho, até ao momento em que abrimos uma garrafa e nos deliciamos a apreciar os seus gostos e aromas.

J.A. – O que se ganha/perde numa produção mais tecnológica face ao processo tradicional?
C.G. – Penso que a maior vantagem reflete-se na segurança alimentar dos consumidores e na qualidade do produto, que geralmente passa por um processo de certificação, onde um conjunto de parâmetros são analisados e é garantida a sua conformidade. É este o papel desempenhado pela Comissão Vitivinícola do Algarve, como organismo de certificação acreditado, a par da defesa e promoção dos vinhos produzidos na região.

J.A. – O que é preciso para fazer um bom vinho? O que garante a qualidade de um vinho: a uva que lhe dá origem, o processo a que é submetida ou o toque do enólogo?
C.G. – Sem entrar em pormenores técnicos, diria que a conjunção de todos esses processos irá determinar a qualidade e o caráter diferenciador de um vinho.

J.A. – Na época de vindimas do Algarve é preciso recorrer ao trabalho sazonal, como é habitual noutras regiões?
C.G. – Um dos fatores negativos na produção de vinhos do Algarve é a falta de mão-de-obra, que é totalmente absorvida pelo setor do turismo. Os prestadores de serviços na área da vitivinicultura não conseguem dar resposta a todos os produtores, sendo estes obrigados a recorrer com frequência a trabalhadores de fora da região.

J.A. – E há quintas algarvias que abrem as portas ao público que queira participar nas vindimas?
C.G. – Começam a aparecer na região empresas especializadas na área do vinho, com a oferta de serviços e experiências enogastronómicas, como é o caso da participação nas vindimas, visitas às adegas e provas de vinhos. Alguns produtores já oferecem estes serviços, tendo para o efeito espaços apropriados e lojas onde comercializam e promovem os seus vinhos.

J.A. – O grande problema dos vinhos algarvios continua a ser o marketing e as vendas?
C.G. – Estas questões têm vindo a ser naturalmente ultrapassadas e esclarecidas. Temos de dar tempo, ao tempo. Para um crescimento sustentável, o tempo é fundamental e os resultados não aparecem de imediato. Uma coisa é certa: estamos perante o renascer de uma região. Isto porque, na última década, assistimos à afirmação dos “Vinhos do Algarve”, quer no panorama nacional quer internacionalmente. Esta realidade deve-se essencialmente à capacidade empreendedora, esforço financeiro e de gestão dos produtores da região.

J.A. – Mas porque é tão difícil conquistar mais mercados?
C.G. – A Comissão Vitivinícola do Algarve já tem nos seus orçamentos dotações para a “promoção e divulgação” e o Algarve, enquanto região, já vai sendo convidado para eventos de vinho, como foram os casos do Mercado do Vinho – Campo Pequeno e da Sommerlier Wine Market em Lisboa, o que antes não sucedia. Cerca de 85% da produção de vinhos do Algarve são comercializados e consumidos na região, com as vantagens que daí advêm, nomeadamente a proximidade do mercado turístico. Os novos mercados têm principalmente importância, com o aumento da notoriedade e reconhecimento da qualidade dos nossos vinhos.

J.A. – Os vinhos algarvios são mais caros…?
C.G. – Relativamente ao preço, sem referir os citados elevados custos de produção, considero que o mesmo deve ser regulado pelo “mercado”. Se os vinhos do Algarve estão presentes nas prateleiras das superfícies comerciais e nas cartas dos restaurantes e têm procura, escoando anualmente toda a sua produção, estamos perante uma falsa questão.

J.A. – Há quantos anos começou a trabalhar no mundo do vinho?
C.G. – A minha atividade profissional no setor do vinho teve início em janeiro de 2010, quando fui convidado para coordenar o processo de acreditação da Comissão Vitivinícola do Algarve como organismo de certificação, tendo sido posteriormente eleito como presidente da direção.

J.A. – E qual a diferença que sente desde então até aos dias de hoje?
C.G. – Em 2010, existiam 16 produtores a certificar vinhos com direito a IGP Algarve (Vinho Regional Algarve) e DOP (Lagos, Lagoa, Portimão e Tavira) e entrava no mercado cerca de 5.000 hectolitros de vinho (500 mil litros). Atualmente, esse número mais que duplicou, temos 35 agentes económicos a produzir vinho certificado de qualidade e ultrapassamos no ano passado a fasquia da produção de 1.000.000 de garrafas. Em 2010, a estrutura orgânica da Comissão Vitivinícola do Algarve contava apenas com um colaborador e um diretor executivo a tempo parcial. Hoje, temos três colaboradores técnicos no quadro permanente e dois estagiários para apoio na área da promoção. Foram ainda criadas condições para o desenvolvimento de vários projetos, como o “Algarve Wines & Spirits”; a criação e instalação de um laboratório de enologia; estudos sobre a região, quintas e adegas (produção de uma publicação); e o diagnóstico do perfil das empresas vitivinícolas da região, entre outros.

J.A. – Consegue descrever o perfil dos vinhos do Algarve em poucas palavras? Dê uma boa razão para se beber vinho algarvio…
C.G. – O que mais distingue a região do Algarve é a sua localização única, de influência mediterrânea e atlântica e a grande diversidade de solos, que conferem características especiais aos vinhos produzidos, determinados essencialmente pelo “terroir” e competência dos vitivinicultores e enólogos, podendo designar-se por “vinhos de autor”. Estes fatores únicos conferem às uvas e aos vinhos produzidos características específicas, um bom equilíbrio entre os açúcares e a acidez, assim como a parte aromática. Resumindo, são vinhos bem produzidos, elegantes e fáceis de beber.

J.A. – Da sua experiência, como são vistos os vinhos algarvios cá dentro e lá fora? Os vinhos do Algarve são atualmente competitivos face a concorrentes nacionais e internacionais no que se refere à qualidade?
C.G. – Os vinhos do Algarve têm vindo a conquistar um lugar no “mundo dos vinhos”, sendo a sua qualidade reconhecida por destacadas personalidades do setor. Saliento o facto que, de entre as nossas 170 referências, são galardoados anualmente mais de 50 vinhos em concursos nacionais e internacionais, onde a avaliação é realizada por júris independentes e em “prova cega”. Gostava de destacar as mais recentes medalhas de ouro conquistadas pelos nossos vinhos: o “Cabrita Native Grapes – Negra Mole”, feito exclusivamente com a casta Negra Mole – a mais típica da região e “única no mundo” – e o recente Melhor Vinho Português no prestigiado concurso francês “Citadelles du Vin 2017”, para o Vinho Regional Algarve Tinto 2016 “Portas da Luz” da Casa Santos Lima.

J.A. – E quais os problemas de um produtor de vinho do Algarve?
C.G. – Os produtores de vinhos do Algarve deparam-se com as questões inerentes a uma pequena região vitivinícola: dimensão da exploração, custos dos fatores de produção e a falta de mão-de-obra especializada. Relativamente ao escoamento da produção, o processo tem evoluído muito favoravelmente, pois as empresas da restauração, hotelaria e a distribuição têm adquirido consciência da importância da oferta da produção local e os seus efeitos na sustentabilidade económica regional. Ou seja, já perceberam que devemos proporcionar a quem nos visita a possibilidade de degustar os vinhos do Algarve e criar experiências inesquecíveis.

(ESTA ENTREVISTA FOI PUBLICADA NA ÍNTEGRA NA EDIÇÃO DE 7 DE SETEMBRO DO JORNAL DO ALGARVE)

Nuno Couto | Jornal do Algarve