CARLOS ALBINO

 SMS 470

Voltamos a Sagres

Sim, voltamos à questão de Sagres, essa grande área marcante em todos os sentidos – pela História e restos da História, pelo Símbolo que é descontadas as moças que o nacionalismo autoritário engendrou, pelo ponto de deriva do planeta que quem lá chega sente que sempre foi e é. Não vamos retomar os argumentos que aqui, há uns anos já, aflorámos no sentido de uma iniciativa que, com peso e medida, conduzisse Sagres a Património Natural ou mesmo a Património da Humanidade. Nem vamos reabrir polémicas com meia dúzia de académicos diletantes e outra meia dúzia de políticos de ocasião que, de uma forma ou de outra, alcandorados nas mordomias nacionais a pretexto da UNESCO, interromperam uma campanha defensável, justificável e necessária, metendo-a na gaveta.

Retomamos o tema de Sagres porque é chocante a forma como todo o chão de Sagres está na omissão da promoção da Região, sendo o seu emblema mais nítido e sendo o cinema natural, direto e vivo que o mundo culto, curioso e ávido de emoção com as surpresas que o planeta oferece, mais procura, visita e leva de recordação. Não vamos aqui repetir que o promontório há milénios conhecido como Promontório Sacro, bordejado por várias civilizações que se aventuraram à travessia de terras e mares, palco de santos e de piratas, de fábulas e de gestas inquestionáveis, recanto que não deixa nenhum poeta insensível e até esmagado, área em que a terra parece desabar mas não desaba e em que o mar parece gigantescamente domesticado mas não está, não vamos repetir o que Sagres contém de conhecido, de comprovado, de sugerido e de desafiante para quem queira pegar nos fios daquela meada com seriedade intelectual e sem aqueles corporativismos do saber que, por definição, também têm as suas cátedras de fatela. 

Voltamos a Sagres porque para alemães que sejam, japoneses que cheguem de máquinas a tiracolo, norte-americanos que por lá passem tentando perceber o desconhecido, franceses, ingleses, por aí fora, enfim, todos aqueles que pela lógica da batata de alguns que tutelam a matéria são reduzidos a esse rótulo humilhante de “mercado turístico”, e não mais do que isso como se fossem rebanhos a sair do aeroporto de Faro, Sagres não é explicado ou é vaga e corriqueiramente explicado, e passa apenas como mero ponto interessante de excursão pífia a sítio ermo com farol e uns enfadonhos documentários da macaca. Ou seja: Sagres não é o ex-libris da região algarvia, peça obrigatória do seu cartão de visitas, marco indelével da história do país e passada larga da própria Europa.  E devia ser tudo isso se tivéssemos um Senhor Turismo a sério casado com uma senhora séria chamada Dona Cultura.

Flagrante corolário: Muita gente, no lugar de Macário Correia, já tinha tomado uma decisão. Na capital da região, porque como dizia genialmente José Apolinário “Faro é Faro”, e na AMAL que anda com retrato muito desfocado.

  • José Rico

    A dificuldade de escrever aqui um comentário é tal, que nos levou a deixar a sintaxe do último um pouco avariada.

    Mas aqui vai devidamente rectificada:

    «[...]  e porque a essa benesse apenas podem aceder os que estão encaixados nas Autarquias, enquanto técnicos carreiristas (na sua esmagadora maioria), não possuindo a (necessária) preparação adequada (salvo Loulé e Tavira) para desenvolver “alta cultura”.»

  • José Rico

    Pois, mas para  “devia ser tudo isso” deveria de haver, não sei onde  “meia dúzia de académicos (não) diletantes a quem lhes fosse conferido o papel de dar consistência à nossa participação (algarviana) na História de Portugal, e em particular realçar a do Algarve na importância que teve no envio e regresso das caravelas que contribuiram para acabar com certos mitos gregos. O Prof. Rosa Mendes, regeu um Mestrado sobre a História do Algarve, mas por falta de aderentes, finou-se. É um dado adquirido, que no Algarve ninguém vive da cultura, e porque a essa benesse apenas podem aceder os que estão encaixados nas Autarquias, enquanto técnicos carreiristas (na sua esmagadora maioria), não possuindo preparação adequada (ressalvo Loulé e Tavira) para desenvolver “alta cultura”.