AVARIAS: Um atentado e uma guerra

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Pense, caro leitor, que está como eu, num lugar em que na televisão passa um noticiário do qual não tem outra ideia que não seja a que lhe é dada pelas imagens e por uma ou outra informação que passe num dos rodapés. Não será talvez uma situação habitual, mas não será tão rara como está a imaginar: numa sala de espera de um médico ou advogado, numa loja, num ginásio, ou em qualquer lugar onde exista uma televisão a falar para o boneco. Pois num destes dias (ou dois, depois do atentado de Barcelona), o correspondente da SIC na mesma cidade condal parlava e o que aparecia em rodapé era um texto mais ou menos assim: “ Novo atentado em Barcelona”. Por acaso fiquei um bocado a olhar, feito parvo. Dois crimes de terrorismo na mesma cidade, em dias praticamente seguidos, não são das coisas mais vulgares. O que se passa é mais ou menos o seguinte: quando há um grande atentado num determinado país ou cidade, a polícia apressa-se sempre a dizer que foi desmantelada a hipótese de um outro grande atentado. Que encontraram uma camioneta cheia de garrafas de gás, quando o dono do camião não se quer iniciar no negócio, ou uma casa cheia de explosivos numa altura em que ter explosivos em casa ainda não é permitido. Cá para mim são tretas inventadas, mas tretas que nos descansam e fazem dormir em paz com o mundo, além de que mostram que as forças de segurança estão alerta. Então como eu dizia, o que se passou é que eu pensei que indo em contramão com o que é normal tinha havido outro atentado em Barcelona. Mas era mentira, o que tinha sido encontrado era um pacote com pó branco que não era explosivo, nem pouco mais ou menos, mas que tinha sido, no mínimo, considerado atentado pelo correspondente da SIC, quando ainda não sabia o que tinha acontecido. Mais uma vez a velha história do título do artigo que não tendo nada a ver com esse artigo propriamente dito, leva as pessoas (em que me incluí) a olhar para o ecrã e televisão. E depois vão dizer que trato mal os jornalistas que me vão aparecendo pela frente, e que não vejo na programação feita com notícias nada que nos possa orgulhar.
Vai uma grande excitação com os livros de fichas para os meninos e as meninas da Porto Editora. Dei por isso, quando espreitei um noticiário numa noite dessas atrás. Cá para mim o que a editora tentou fazer foi vender três livros onde só devia vender dois. Imagine que uma família tem um filho e uma filha; vão querer dois livros em vez de um. Vi logo umas senhoras e uns senhores que me assustaram, com umas caras de moralistas, desejando a morte e coisas piores. Vi também que isto podia ser o princípio da venda de livros para filhos de vegetarianos, para casais do mesmo sexo etc. Também não vejo bem a coisa e espero que tudo não tenha passado de uma tentativa (entretanto frustrada) de fazer dinheiro com a malta. Mas não me parece que isto mereça mais que uma nota de rodapé nas chamadas redes sociais. Agora que foi a Porto Editora que comprou a guerra, disso não tenha dúvidas meu caro e paciente leitor.

Fernando Proença

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