AVARIAS: Somos assim e assim seremos

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Como já se esperava, acabaram os fogos, recomeçou a Catalunha. É a lei da alternância de pesos da imprensa via TV. Tudo tem uma importância relativa é só uma questão de tempo e espaço. Por exemplo o cabeludo Carlinhos Puigdemont podia ter declarado a independência na semana dos fogos que ninguém, por cá, lhe ligava peva, só por causa das tosses. Quis dar-lhes este pequeno apontamento da minha extraordinária sageza em termos gerais, não vão pensar que ando a dormir, em vez de pugnar pela defesa dos bons hábitos e da justa moral. Em parte, e só em parte, penso que nem sempre as nossas pequenas notícias devem ceder completamente o espaço que disputam com os mísseis do presidente da Coreia do Norte e os tuites de Trump, sendo óbvio que a CMTV, faz exactamente o contrário: uma boa facada em Valpaços vale por mil declarações de independência de Barcelona. Essa máxima é respeitada de uma forma literal pelos jornais desportivos (digitais e em papel), duma forma completamente tola: os campeonatos da estranja passam à frente, por exemplo, da nossa segunda liga, empurrados pelo discutível gosto do nosso povão, mas não só. Li outro dia que nos devíamos preocupar por todos os problemas do Mundo de igual modo; dizia alguém que olhamos para as cem mortes no nosso país e não vemos as duzentas num país africano, pressupondo, muito provavelmente, que somos uns terríveis racistas e xenófobos. Penso que uma vida humana vale o mesmo que outra vida humana, mas não me repugna que se dê mais importância às mortes que nos são próximas. Acho que isso faz parte da nossa natureza e não me parece que esse tipo de comportamento seja censurável. Por isso mesmo penso ser tola a atitude dos nossos colunáveis, jogadores de futebol, artistas de telenovela e famosos que o são só porque o são, quando exibem nas redes sociais, camisolas e tudo em que possam, por exemplo, escrever: força aos que foram prejudicados pelos fogos, e assim sucessivamente. Despindo-me o mais possível da minha camada de cinismo referiria que essa é a forma mais fácil de se fazer caridade e processos de boas intenções; com quem está longe e exige nada, chega só uma tarja, um post, e as coisas estão resolvidas. Sem dor, e carregadas da pomada digital e viral que os há-de cobrir. Talvez por isso, num dos dias dos fogos de Outubro no jornal Record se escrevia elogiosamente sobre o ex-jogador Alan, referido como embaixador do Sp. Braga na UEFA ou coisa parecida. Ser-lhe-ia então outorgada a medalha de bronze (iniciativa diária do jornal), por ter andado a ajudar a apagar fogos (conjuntamente com populares, como gostam de referir quando se fala do povão) que lhe ameaçavam a casa. Penso que o Record se referia ao gesto puramente heróico (dizem eles), de um ex-futebolista na defesa da sua casa. Para o jornal em causa, a norma seria o ex-jogador manter-se em casa, com o ar condicionado ligado, à espera que os bombeiros chegassem, ao mesmo tempo que os ditos populares se esgatanhavam a tentar deter as chamas. Isto, se não existissem heróis. Estamos assim.

Fernando Proença

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