AVARIAS: O mundo como ele é

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Depois de uns dias de calor, daqueles que são muito bonitos durante o dia mas que não deixam dormir à noite, resolvi adoptar o princípio da nossa imprensa: quando está muito calor e não chove há muito tempo, a culpa é das alterações climáticas, ou seja do aquecimento global. Quando chegarmos ao Inverno e estiver um frio de criar bicho, a culpa é do mesmo aquecimento global. O aquecimento global passou para o domínio público e agora os que sobre ele escrevem (não todos, evidentemente), fazem parte, não da comunidade científica, mas da comunidade dos que tudo comentam, desde Salvador Sobral à génese do terrorismo e também ao aquecimento. É o que dá a discussão científica ter deslizado para o domínio do senso comum. Em parte (só em parte, verdade seja dita) essa é uma das razões para que um mentecapto como Trump tenha conseguido levar avante os seus propósitos negacionistas: se tudo (o frio, o calor, a chuva, a falta dela) pode ser assacado ao aquecimento global, por que não negar tudo?
Por falar em dias de calor, outra noite vi, com estes, que uma fatia da comunidade árabe/africana/portuguesa, mais ou menos emigrada por essa Europa e agora em gozo de umas merecidas férias no Algarve, bebia afincadamente, numa casa de divertimento nocturno, uísque, cola, acompanhada por quantidades substanciais de uma conhecida bebida energética e açucarada. Mais, o que vi, em todas as mesas que me rodeavam, foi a mesma receita; só mudava a bebida alcoólica, umas vezes uísque, outras, vodca ou gin. Não sei se chore se me alegre. Não sei se veja ali uma fenda nas absolutas convicções (rir) que a comunidade muçulmana continua a ter contra o álcool, se pelo contrário esteja a observar um rito de passagem (chorar), que alguns desses jovens endinheirados mantêm, numa altura em que se encontram longe dos pais. Uns verões assim, para mais tarde se absterem (pelo menos em teoria) de tocar em álcool. No entanto, uma questão parece-me preocupante: a de uma quantidade substancial de gente nova não conseguir beber nada que saiba ao que é, e que, por sistema, tenha que introduzir açúcar em qualquer bebida. Por alguma razão um gajo vai ao supermercado e tem uma dificuldade do caraças em descobrir, por exemplo na secção das águas, uma que seja apenas água. Existe água com aroma, água com sabor, água colorida e pouca água, água. Cerveja, que seja cerveja também. A dificuldade disto tudo (eu ia dizer a merda disto tudo, mas pensei um pouco antes de escrever asneira) é que mesmo os produtores de vinho parecem não escapar a esta tendência generalizada. Outro dia bebi um razoavelmente conhecido vinho verde. Não é caro e permanece no mercado como uma marca (dizem os especialistas, não eu amador da Silva) em que uma boa relação preço – qualidade se tem mantido, mas achei-o na altura doce de mais, pensando sempre que o problema estava nas minhas papilas gustativas (ou na comida). Li, dias depois, que essa é uma tendência actual, adicionar mais açúcar ao vinho verde, como adaptação ao gosto de parte da clientela: devia ser o caso em questão. Agora assustei-me verdadeiramente; o que vai ser o futuro? Verde a saber a chiclete? A beber vamos…

Fernando Proença

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