AVARIAS: O Brazil e o drone

OPINIÃO|FERNANDO PROENÇA

E se ao virar a esquina se deparasse com o projecto do acordo ortográfico para, por exemplo, dois mil e vinte e dois? Na noite em que escrevo parte deste texto, os malacuecos da SIC Notícias, apresentaram em rodapé, e sobre uma notícia que dava o exército brasileiro como integrante de uma acção apaziguadora na violência habitual das favelas, a extraordinária grafia em que o nome do país aparece com zê. Pois pensavam os meus amigos, que tinha havido um terrível mas-mais-que-corrente-engano, logo revisito pela estação, de troca de letras? Não senhor; logo no momento seguinte os mesmos jornalistas (?) apresentaram uma peça com o ministro da Justiça do Brasil, mas em que no rodapé, figurava como ministro da justiça brazileira, também com o mesmo (ou outro igual) zê. Não sei o que lhes diga; todos erramos todos somos filhos de um deus menor, mas a troca de Brasil por Brazil é ligeiramente mais grave do que se tratasse de um erro normal. Parece-me mais estar em linha com o tipo de malta que recebeu toda a informação que guardou, a partir de dois ou três sítios escolhidos na internet: e logo todos em inglês. Infelizmente vai-se vendo cada vez mais este tipo de coisas; gente de altíssimo calibre, que arvora por dá cá aquela palha mestrados no estrangeiro e até doutoramentos, mas que ao menor contratempo, comete erros dificilmente desculpáveis para os padrões de quem fez a quarta classe no primeiro quartel dos anos cinquenta. A minha nota do início do texto é mais um subsídio para os amplos estudos que hão-de conformar o próximo acordo ortográfico. Se o povo povão manda na língua em toda a sua extensão, então que se substitua o nome de Brasil por Brazil e não se fala mais nisso.
Olho para o início da supertaça caseira entre o Benfica e os vimaranenses que é uma designação que fica sempre bem. Paulatinamente o espectáculo desportivo, tal e qual é visto pelos americanos, está a tomar conta das nossas cabeças. Agora não há final que não comece com uma surpresa, e a surpresa é sempre, ou a bola de jogo trazida por um paraquedista ou a bola trazida por um drone: aqui saiu a fava ao paraquedista, logo veio com um drone. Ainda não consegui perceber com exactidão o fascínio que o drone exerce. Este (o da final da supertaça) largava um fumo branco suspeito, mas tudo acabou em bem. Os homens e as mulheres que gostam de ver e brincar aos drones, parecem-me cada vez mais aqueles pais que compravam pistas de automóveis e comboios para os filhos, mas no fim quem brincava eram eles. Ainda antes dos drones vieram os aviões e avionetas telecomandados, para gáudio e divertimento dos pais que nunca brincaram e do Júlio Isidro, e que pelo menos não atropelavam gente na Caparica. Hoje, acontecimento desportivo que se preze, não passa sem aqueles artefactos feios e mal jeitosos, pontas de lança da evolução tecnológica que nos deixa embasbacados. A sorte é que para o ano há outra vez paraquedista.

Fernando Proença

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