AVARIAS: O amanhã que nunca chega

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Aparentemente acabou a designada época dos fogos (viva!!!), e depressa chegará o regresso às aulas (buu!!!). Como podemos saber que estamos no regresso às aulas? Porque na entrada dos hipermercados as toalhas de praia foram substituídos por dossiês e mochilas. Também ficamos a saber que o fim da época dos fogos (será agora ou em Outubro?), não significa que na realidade não possa haver um ou outro incêndio florestal mais manhoso, mas dificilmente virão “meios aéreos”, e haverá muito menos “teatros de operação”, o que será sempre bom para nós e mau, que no entanto é bom, para a proteção civil. Não gostei nada daquela situação das refeições dos bombeiros: vinte euros por duas refeições manhosas mais um papo-seco às secas, não lembra a ninguém que perceba minimamente como funciona a economia. Depois fiquei mais descansados porque descobri que o excedente entre o que se paga e o que se devia pagar se destina a financiar os bombeiros. Mais uma vez o eterno faz de conta português. É tudo fachada, nada do que parece é; nada do que tem ares muito maus é verdadeiramente muito mau, e nada do que parece muito bom é verdadeiramente muito bom. Também descobri de uma forma mais ou menos involuntária que, salvo erro a SIC Notícias, dedicou todo o trinta e um de Agosto a uma coisa que agora se chama “fecho do mercado” e que, para quem não percebe, se destina a saber quem fez os negócios mais sonantes no futebol profissional. Espero, na continuação, que um dia destes não me apareça um canal da SporTV, só dedicado às transferências e ao mercado, o “Bulhão +”. Podia dizer-lhes que uma das ideias que tenho de inferno é um gajo morrer e ser sujeito, na outra vida, a suportar continuadamente informações sobre uma bolsa contínua de transferências de futebolistas entre Ásia e Europa, dentro da Europa etc. Sendo designado um dia (podia adiantar, e era consensual o trinta e um de Agosto), como “Dia Mundial das Transferências no Futebol”, podia-se mesmo almejar (é sempre bom almejar) a considerá-lo feriado, ou pelo menos um quase feriado como a terça-feira de Carnaval. Já o escrevi neste espaço: não consigo entender como é que os leitores de jornais desportivos dão a preferência ao chamado período do defeso. Queremos saber pouco de futebol mas muito sobre os mexericos que giram à volta do mesmo. É como se nos estivéssemos a meter de corpo e alma nos novos princípios do jogo, em que todos somos cada vez mais clientes e menos adeptos, dizem os teóricos. Eu vejo mais esta deriva como a eterna rivalidade entre Sporting, Benfica e agora FêCêPê. O interesse é mais, quanto se ganhou com as vendas, quem se foi buscar, quem ficou e não devia, quem saiu e não devia; as matemáticas do bom ou mau negócio, o eterno gosto pela novidade. Será que da cartola das transferências vai sair algum craque que não estava nas previsões? Como nos sairemos até à próxima abertura do mercado em Janeiro? Nunca estamos aqui, agora, mas sempre no amanhã, ansiosos por quem nos venha salvar.

Fernando Proença