AVARIAS: Jornalismo sem causa (e provavelmente sem gosto)

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Acabei por não ver a segunda meia – final (parece uma coisa de hóquei em patins) do concurso português das canções que apurou a cançoneta tuga que nos vai representar em Kiev, penso eu de que. Sempre que escrevo, propositadamente, a expressão “penso eu de que” o computador dá-me o sinal de que estou a escrever uma semi-asneira. Lembro (aos meus quatro leitores) mais uma vez, que ao usar essa frase estou a prestar uma singela homenagem a Jorge Nuno Pinto da Costa, que é um dirigente à portuguesa, cheio de truques, segundos e terceiros entendimentos, mas com o sal e a pimenta que de momento só vejo, em parte, replicada em Bruno de Carvalho. Tudo isto porque o dirigente do FêCêPê, anda numa fase menos expansiva, causa ou consequência dos tempos menos bons porque tem passado a equipa de futebol principal. Sobre as cançonetas, pois é verdade que não vi uma grande parte, nem sequer a vencedora, isto na altura do sucedido. Hoje sim, já vi e ouvi a dita cuja, que é bem melhor do que a média. Agora também é verdade que não descortino grandes razões para o que aí vai; que finalmente tivemos um festival com grandes canções, que agora é que vamos adiante. A verdade é que no que olhei e tirando um ou outro caso de muito razoável qualidade (pareceu-me o caso da canção de Samuel Úria, que infelizmente, digo eu, não ganhou), não vi nada assim tão especial, que motivasse um sonoro espanto colectivo, que foi o que aconteceu. Aliás, o que vi era melhor que o menor múltiplo comum do que se passou nos últimos, vamos lá, dez anos, em que dependentes do pimba descemos tão baixo que o difícil seria, num ano com outras directrizes e melhores compositores, não fazer melhor. Mas por muito que isto me custe dizer, a maioria das músicas deu-me a ideia de mal acabadas, parecendo que com mais um mesinho ou dois a coisa se compunha. No entanto nada do que ouvi se pareceu com alguns dos temas que nos anos setenta e oitenta levaram o nosso bom nome à Eurovisão. As razões dos sucessivos maus resultados (ano setenta e princípios dos oitenta) são contas de outro rosário: já foram aqui lembradas num texto meu de há duas semanas, mas que se podem resumir em duas frases: política/influência e afastamento dos critérios da chamada tendência festivaleira. O que fica, no rescaldo final da edição deste ano para uma tão grande quantidade de hossanas, é que é muito bom ter amigos, principalmente se esses mesmos amigos estiverem ligados às franjas mais ou menos alternativas (por exemplo Antena 3), que vão vendendo as canções o melhor que sabem. Mas também é verdade que como diz o povo, “os artigos são para as oposições”, putativa tradução de Jorge Jesus para o tão português “os amigos são para as ocasiões”.

Fernando Proença