AVARIAS: É da seca

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

1. Se Portugal fosse um país decente, a história do Infarmed não ficava por aqui. Ficar por aqui, designa a situação em que tudo vai acabar mais ou menos assim: os funcionários que conseguem uma cunha ficarão em Lisboa, nas próprias instalações do Infarmed, mais pequeno, ou seja, constituindo uma espécie de duplicação da coisa, só para atender telefonemas e alguém dizer: “o seu problema não poderá ser tratado por nós aqui em Lisboa, queira dirigir-se à nossa sede do Porto, pessoalmente ou por correio electrónico. O endereço é blá blá blá…” Tenho a ideia de que se o Porto concorresse para uma agência europeia de monumentos nacionais e não ganhasse, Lisboa enviava o Panteão Nacional, pedra por pedra para ser reconstituído na Cedofeita. Claro que nem tudo ia para o Porto. Ficavam em Lisboa (num mini panteão nacional ao lado do MAAT e gerido por António Mexia), pelo menos os túmulos de Amália Rodrigues e de Eusébio, este substituído no Porto pelo corpo de José Maria Pedroto. Parece que Rui Moreira tem muito peso e sobre viver com políticos com peso, ou alguém que possa fazer mossa na popularidade, António Costa é mestre. Se ele um dia pensa que a senhora brasileira da associação das famílias dos afectados pelos fogos do Verão/Outono, lhe pode afectar a imagem, agarra na dita e arranja-lhe uma secretaria de estado para os surdos-mudos, e ela depois que aprenda linguagem gestual.
Entretanto os tipos do Porto (Rui Moreira) que se fartam de berrar pela regionalização não deviam gostar nada que alguns serviços que se encontram na Invicta fossem, por exemplo, deslocalizados para Braga, Guimarães ou Viana do Castelo. Geralmente estes apóstolos do final da macrocefalia não aguentam que a sua macrocefalia de segunda classe seja posta em causa, por nenhuma razão deste mundo. Como se fazem testes à resistência dos materiais, da mesma forma se deviam fazer testes à resistência à regionalização para os políticos que se continuam a esforçar em manter de pé essa parvoíce. Como podem exigir uma coisa, que não concedem deixar fazer, caso sejam eles a ter que dar uma parte do seu poder?
O Infarmed vai andar entre recuos e avanços (funcionários que não se importam, outros que se importam mas podem ver um estágio de um ou dois anos antes de pedir retorno a Lisboa, um mal menor etc. etc.), até que daqui por uns tempos, entre mortos e feridos, as coisas vão-se esquecendo e ninguém vai notar nada. No meio ficará um dos maiores actos de abuso de poder perpetrados pelo Estado português nos últimos anos.
2. Os agentes do futebol (como agora se diz), decidiram, todos à uma, pedir a pacificação do jogo, exactamente quando as maravilhas do vídeo árbitro faziam crer que as velhas lutas intestinas nunca haviam de voltar. Ele é o presidente da federação, jogadores, treinadores, comentadores e um dia, por este andar, entrarão Costa e Marcelo. O que mais me regala o ouvido é que, cada um por si, é como se ninguém tivesse posto prego nem estopa na confusão. Parecem os portugueses que inquiridos sobre a forma como conduzem um automóvel, dizem sempre que a culpa é dos outros. Aqui, parecem-me não existir inocente, mas os presidentes dos chamados grandes e os loucos fanáticos (leia-se, comentadores) pelos mesmos grandes que entopem as noites nos canais generalistas com baboseiras sobre tudo e todos, levam a parte de leão. E a benefício do inventário, os árbitros que bancam o inocente (como dizem os brasileiros) a tentar passar pelos pingos da chuva, faziam melhor em estar calados.

Fernando Proença