AVARIAS: Cá umas coisas que quero dizer

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Estou a ver televisão pelo canto do olho, enquanto escrevo. Não consegui fazer uma estatística de, em quantos artigos comecei assim, no canto do olho ou pelo canto do olho e isto será só para dizer que estando com atenção, também vou desenvolvendo a minha visão lateralizada o que não é nada despiciendo. Parece tratar-se de uma ferramenta que uso por dá cá aquela palha, mas não foi bem assim: sabia como começar o artigo. E não pensem que estou a fazer bluff; é que de vez em quando sou assaltado pela dúvida, que inclusivamente me palmou nesta ocasião, os vinte euros que tinha na carteira. Tinha para vos mostrar o seguinte: existem vários órgãos de informação, que não só a televisão, que trazem nas suas páginas (cinco ou seis a partir do meio da revista ou do jornal) artigos sobre automóveis. Sei que podem trazer à lidação os carros que quiserem e lhe apeteçam, ou que em alternativa, deve existir um acordo qualquer entre os jornais e os importadores para que o texto recaia sobre este ou aquele veículo, mas não digam que não pode ser muito deprimente que a revista do Correio da Manhã traga, por sistema, artigos sobre automóveis que no mínimo custam sessenta mil euros. Avaliem bem a situação: um reformado vai ao café, meter um chazinho no bucho, folheia o jornaleco que o estabelecimento lhe põe à disposição – e como todos sabem, dez em cada nove cafés compram o Correio da Manhã para os seus estimados clientes, e que lhes fica do que lá está? Tudo material do domínio do fantástico como os signos, as páginas de sexo, em que namoradas se queixam dos namorados que não conseguem chegar aos oito orgasmos seguidos e no fim os Ferrari ou os Mercedes preparados, assados e cozidos pela AMG: não uns utilitários quaisquer. Numa situação muito próxima desta estão os críticos de vinhos. Não existe (que eu saiba) uma crítica convincente de vinhos nos canais TV, mas dois dos principais jornais portugueses conservam-na e até a ampliaram. Os textos são geralmente bem informados e o gosto sofisticado, mas os vinhos que apresentam como exemplo para os seus textos não são exactamente o que se pode chamar a escolha de um tuga médio. Não se ponham já a olhar por cima do ombro; não vejo que o método DECO (escolha acertada etc) possa servir de farol par a investigação em torno da pinga, mas apresentar sistematicamente vinhos em que o preço médio por garrafa suplanta os trinta euros, ou anda a viver muito bem, ou a gozar connosco, ou as duas coisas em simultaneidade. Vive neste Mundo esta gente? Qual é o target deste pessoal? Quadros superiores de grandes empresas? Políticos na reforma? Não me venham com a que não podemos ser miserabilistas, mas comprar uma garrafa de Douro, tinto, maduro, por trinta e cinco euros será para todos os dias? Bebem quantas ao almoço, estes jovens empresários de elevado potencial (JEEP) a quem o texto se destina? Não sei o que lhes diga mais.

 

Fernando Proença

 

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