AVARIAS: Boicotes e companhia

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Grande reboliço com os russos. Engraçado que, mesmo depois do final da Guerra Fria, da queda do muro da fábrica das bolas de Berlim e do enriquecimento dos elementos de uma parte do Comité Central do PC chinês (mais não fazem com medo de uma bala na cabeça), continuem em pé (salvo seja) os grandes princípios que, quase, conduziram o Mundo à grande barracada final. Mesmo que os comunistas russos só de isso tenham o nome e que o governo do povo para o povo, norte-americano, seja um arremedo de uma verdadeira democracia, os comunas continuam a dizer ámen ao Putin e os direitolas esgatanham-se em defesa do sofisticadíssimo Trump. Para o PC e o Bloco de Esquerda qualquer coisa que cheire a ser a favor dos steites, leva na cabeça, menos as marcas que usam e os formidáveis passeios a Nova Iorque que fazem. Para o PSD e o CDS, tudo o que saiba a vodca (que por acaso não sabe a nada) é para mandar para o esgoto. Menos, claro, o mesmo vodca que lhe preenche os cocktails, das noites que dizem frequentar. Esta coisa dos diplomatas expulsos parece coisa de brincadeira, tirando o contra-espião que, no momento em que lhes escrevo está mais para lá do que para cá. Sei que Portugal deveria, para não ficar mal na fotografia, ter expulsado um ou dois diplomatas russos. Tirariam à sorte, lá na embaixada, quem se dá mal com o sol, o consumo de sardinhas e boa comida em geral. Da Rússia viriam os dois que fazem frieiras com o gelo de Moscovo. Mas não vejo aqui grande necessidade de marchar atrás dos ocidentais. Nós já andámos, com a cimeira dos Açores, do espertalhão do Durão Barroso e as armas de destruição maciça dos iraquianos e depois vimos a confusão em que nos tínhamos metido. Para mim, tudo me cheira a merdas para consumo interno. Putin vai arranjando, de vez em quando, alguma coisa que sustenha o seu regime ditatorial. Os russos estão-se, em geral, marimbando para a as chamadas liberdades, e para eles é muito mais importante que o presidente gira o caos em que o país mergulhou, com a dissolução do império, devolvendo-lhes parte do esplendor perdido, do que miudezas diplomáticas. Os ingleses também andam danadinhos para arranjar um bode expiatório para o descrédito em que lançaram o país depois da votação do “Brexit”. A primeira-ministra mais o semi-louco do ministro dos negócios estrangeiros, precisam, como chá para a boca, de alguma coisa que una os ingleses contra os inimigos mais ou menos imaginados. Não me armo em defensor do governo português, mas este seria um daqueles assuntos que a oposição pegaria como lhe interessasse. Se expulsassem um diplomata, diriam logo, e por que não dois? Se dois, por que não três e assim sucessivamente. Quem não ficou nada contente com o anterior boicote dos russos às nossas exportações foram os produtores de porcos (tudo por causo da invasão russa na Crimeia). Eu sei que não se pode entregar tudo à economia, existem princípios morais e lei internacional. Nesse particular tenho as minhas dúvidas: não me parece que os americanos se importem muito com isso quando vendem armas à Arábia Saudita, afinal de contas uma das grandes impulsionadoras do terrorismo internacional.

 

Fernando Proença

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