AVARIAS: Atentados

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Os jornalistas dos canais de notícias (será quase um caso de pleonasmo), são, na sua vida de fazer tudo para segurar as audiências, uns, não diria heróis (hoje o ser-se herói anda muito por baixo) mas talvez uns fortes +. Talvez como parte das licenciaturas a quilo que tornaram banal ter uma, também o ser-se herói – por via da sua vulgarização – está mais baixo que a peseta. Existirão por isso, os fortes de terceira, segunda, primeira e no cimo, sub – heróis; heróis +; heróis quase legítimos e no fim, os verdadeiros, os da Bayer, que são campeões em título: os que ajudam velhotas a atravessarem ruas sem precisar de dizer que estão a “fazer voluntariado”. Estava eu a fazer trinta e cinco minutos de bicicleta estática no ginásio Body Art, em Faro (engoli o que de mal disse, um dia, sobre os ditos), quando surgiram na TV que tinha em frente, as primeiras imagens do atentado de Estocolmo. Pois durante o tempo que estive com a televisão diante dos olhos, os jornalistas (eram imagens da SIC Notícias) não fizeram mais nada do que encher chouriços. E digo-vos meus amigos, encher chouriços é muito mais difícil do que possam pensar. O que se passa, é que em situações normais da nossa vidinha e sem informações que o confirmem, ali levam eles a repetir o que já disseram quinze vezes, pesando as palavras para não chamar assassinato ao que pode ser uma morte natural, não vá o diabo das indemnizações tecê-las. No caso vertente o difícil era que não se tratasse do demónio do terrorismo, mas mesmo assim não se descaíram, repetindo sempre que o governo sueco tinha dúvidas, sobre a autoria da desgraça. Um camião que atropela uma série de gente e para acabar em beleza (segundo o seu ponto de vista) entra por dentro de uma loja, não será conduzido por alguém que ostenta na traseira do veículo um autocolante a dizer: “Veículo conduzido por um profissional. Se verificar qualquer anomalia ligue para o número xis”. O que me surpreendeu, acima de tudo, foi ver (só porque não ouvia o que se dizia) o Dr. António Nunes, empossado director de um tal Observatório da Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT na língua de pau do Estado), com toda a certeza um bom tacho. Mas o Dr. António Nunes não era o célebre ex (fiquei a sabê-lo após pesquisas aturadas) director da ASAE? Palavra que no fim pensei, para o meu fecho éclair, que melhor pessoa para saber de terrorismo seria mesmo o Dr. Nunes. Afinal foi ele, mais a tropa que conduziu, que a coberto de nos fazer entrar na Europa por via da higiene, mais aterrorizou os nossos proprietários de restaurantes e sneques. Havia sempre alguma coisa que estava mal, algum extintor que não se posicionava na altura devida, alguma colher de madeira na cozinha. Claro que muito do que fizeram estava bem, e isso bastava para lhes descansar a consciência.

Também gosto dos jornalistas que fazem os rodapés. Bem se esforçam para nos prender a atenção, apesar de, de vez em quando, borrarem a pintura. Nessa emissão (no atentado), passou vezes sem conta a frase: ” pelo menos 3 mortos confirmados”. Se estavam confirmados 3, para quê o “pelo menos”? “3 mortos confirmados” não enchia o rodapé? Não? Então fizeram bem, zelaram pela composição e aspecto da coisa. Espero que os condecorem a 10 de Junho.

Fernando Proença