AVARIAS: A desgraça e o resto

OPINIÃO | FERNANDO PROENÇA

Aproxima-se o Natal. Para algum dos meus amigos que me estará a ler, a data passou ou será já a seguir, dois ou três dias; ou foi, por exemplo, há dois meses – se encontrarem estas linhas num salão de cabeleireiro ou na sala de espera do dentista mais próximo. E digo-vos, meus confidentes, que, como os almoços forçados e os pares de meias que (felizmente) se recebem das tias, também a TV não traz grandes novidades, o que nem sempre é tão mau como parece. Na TV certa será a vez do Natal dos Hospitais, mais os tradicionais filmes família (devem existir bolsas de apostas; será “Sozinho em Casa” a escolha da RTP para a tarde de Natal?, ou serão desenhos animados? Porque não uma edição do Placard com apostas só para estas ocasiões?), os variadíssimos circos, coros infantis, e para gente com outra pedalada (ou pretensões a outra pedalada) a orquestra sinfónica de Viena a interpretar valsas de Strauss. A minha tese é que existem certezas que nos defendem do incerto de todos os dias, como por exemplo, termos novas, sempre da Serra da Estrela (bacalhau para a consoada? Fim de ano com lotação esgotada. Etc.). Exactamente como as notícias sobre o Algarve (restaurantes, discotecas, festivais), na época entre Julho e Agosto, talvez porque os tipos de Sacavém, Loures, Amadora, Massamá e outras zonas insalubres e impróprias para consumo humano, se desloquem para Sul, para o gozo de – dizem eles – umas merecidas férias. Se não existisse autoestrada para o Algarve, já há muito que as nossa formosas terras do sul tinham entrado no esquecimento, levando quase o mesmo caminho que o interior. Lembrei-me de formular mentalmente estas ideias quando vi, no decorrer desta semana, a pressa que os nossos litoralizados (técnicos disto e daquilo a viver em lisboa e no Porto) têm de levar coisas para Pedrógão Grande: ele são os fazedores de presépios, ensaiadores de coros e o que mais houver que possa aparecer na televisão. Atenção, não me julguem já o cínico impenitente que, às vezes e se calhar mais vezes do que seria normal, aparento ser: não penso mesmo que todas aquelas pessoas que de repente aparecem a organizar escuteiros e ajudar velhinhas a atravessar ruas em Pedrógão se estejam só a autopromover. Só retenho que há, dentro de nós seres humanos, uma tendência para nos podermos aproveitar um bocadinho das desgraças alheias a fim de mostrarmos à saciedade (e já agora à sociedade) até onde pode ir o nosso coração. Significa isso que a autopromoção será uma daquelas consequências inevitáveis de se fazer obra. Agora, não tenho dúvidas que os fogos estão, para o conhecimento de Pedrógão Grande como a taça de Portugal para Oleiros, depois da visita do Sporting. A partir do momento em que um grande vai jogar ao interior, é mais uma terrinha do nosso Portugal que sai um bocadinho da obscuridade a que foi votada por todos nós. Infelizmente parece que tirando um ou outro jogo de futebol, apenas as desgraças nos alertam para a existência de vida humana a mais de trinta quilómetros de distância de Lisboa e do Porto.

Fernando Proença

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