AO CORRER DA PENA: Quem sou eu

OPINIÃO | FERNANDO PINTO

Escrevo, a partir de hoje, uma croniqueta neste jornal.
E como dizer-vos então quem se vos dirige? Ao contrário de outros colunistas, não tenho especiais predicados nem capacidades que me qualifiquem para esta nobre actividade. Nem sou personagem conhecido. Haverá portanto que me apresentar e dizer ao que venho. Prosaicamente direi, Fernando Pinto de registo, 65 anos, arquitecto, nortenho de nascimento e sulista de coração, um pai algarvio, uma mãe nortenha e um filho alentejano. Como definição é pouco mas serve porque o que vai contar, é aquilo que eu for capaz de aqui escrever. Em resumo, não importa tanto assim quem eu sou, mas o que escrevo. E isso ficará ao vosso julgamento a partir de agora. Quem me conhece, sabe que fiz da preservação do património cultural a minha profissão, porque acho que isso é a parte mais substancial da memória de um povo e enquanto tal, da sua identidade. E a identidade de um povo é feita da sua ligação à terra, ao mar e ao ar que nos faz viver. Património não são só os monumentos e as casas, as ruas e as praças, os montes e os vales, as praias e o mar. Património são também os charrinhos alimados, as armações de atum e o corridinho ou o baile mandado e tantas outras coisas que nem mil crónicas chegariam para enumerar. Na verdade património é, em primeira lugar, nós próprios que aqui nascemos ou aqui vivemos. É por isso urgente defender quem cá vive. E que melhor maneira de defender quem cá vive senão defender o meio em que vivemos? A cidade, o campo e o mar, são o nosso meio, o nosso ambiente. É da sua qualidade que depende a qualidade das nossas vidas. Não é preciso que a UNESCO declare um qualquer edifício, uma qualquer cidade ou uma qualquer prática como “Património da Humanidade” para que esse edifício, essa cidade ou essa prática sejam dignos de preservação, de acarinhamento e de protecção. Sempre nos coube a nós preservar, acarinhar e proteger esse bem e só por isso foi possível à UNESCO reconhecê-lo. Mais que a UNESCO (que muito prezo e que me proporcionou a especialidade que tenho) somos nós os primeiros avaliadores do nosso próprio património. Cabe-nos por isso a nós, mesmo depois do reconhecimento pela UNESCO, manter, acarinhar e manter vivo esse bem, e nós com ele. Na verdade, o primeiro e mais importante património são as pessoas e essas não são sequer passíveis de classificação, mas creio que é chegado o momento de, de certa forma, reivindicar uma quota-parte desse estatuto patrimonial para nós, que lhe damos quotidianamente forma e vida. É que o pulsar da cidade é o nosso próprio pulsar. O que se faz à terra, a nós se faz. O que fazemos, reflecte-se o mar. Em conclusão, nós, a cidade, o campo e o mar, constituímos um todo indissociável. Mas destes quatro elementos, o mais finito é o próprio Homem. A cidade, antes de ser nossa, já foi de uns bons milhares de cidadãos através dos tempos, e será, se nós assim a soubermos usar e preservar, de muitos outros milhares a seguir a nós. Tal como o campo. Tal como o mar. Mas é nossa responsabilidade, enquanto cidadãos, sabermos viver e fazer viver a cidade, sabermos cultivar e melhorar o campo, preservarmos e respeitarmos o mar, enquanto por cá andarmos. E deixá-los, se possível, melhores que aquilo que os encontramos. Sei que é difícil até porque, aquilo que por vezes parece mais óbvio não é tão importante para a sobrevivência da memória dos seres humanos quanto outras coisas menos evidentes. Então, é preciso descobrir-lhes os modos, os jeitos e os sinais e tratá-los como se de nós próprios se tratasse. Porque é disso mesmo que se trata! Tanto ou mais do que de um “médico”, a cidade, o campo e o mar precisam de um “nutricionista”. E todos podemos ajudar, perguntando-lhe e perguntando-nos a cada momento se esta será a melhor nutrição, porque é também de nós que se trata. Somos todos necessários à identidade e ao futuro do Algarve porque estão ambos ligados. Não nos estrangeiremos. Façamos de cada forasteiro um algarvio porque é de algarvios que esta terra, este mar e estas cidades têm sido feitos ao longo de muitos e muitos anos. E esses (estes) algarvios vieram, ao longo de séculos, de muitas partes. Muitos demandaram também este Mundo, espalhando este património algarvio e português. Tal como hoje. E todos foram – ou são – contribuintes do património algarvio. É para essa consciência de nós próprios que me proponho, na medida das minhas modestas possibilidades, contribuir.

*cronicas.fp@gmail.com

Fernando Pinto

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