“Água da torneira é melhor e mais barata que a engarrafada”

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Sabia que engarrafar água gasta duas mil vezes mais energia do que tê-la a sair da torneira? E que, ao comprá-la, o consumidor paga mil vezes mais por um litro do que paga à empresa de distribuição de água canalizada pela mesma quantidade? Em entrevista ao JA, a porta-voz da Águas do Algarve, Teresa Fernandes, destaca a revolução que foi feita neste setor ao longo da última década, salientando que “a qualidade da água foi um problema durante muito tempo”, especialmente em alturas como esta, de seca severa, mas “nos últimos 10 anos têm sido feitos progressos enormes” na região. Assim sendo, a responsável assegura que a desconfiança que ainda persiste com a qualidade de água fornecida na rede pública é “totalmente infundada”.

Jornal do Algarve – O abastecimento de água no Algarve caracteriza-se por uma forte sazonalidade, provocada pelo pico do turismo na região. Nos meses de julho e agosto, o consumo chega a atingir o dobro em relação à maioria dos meses da época baixa. Esta situação pode colocar em causa a quantidade ou qualidade da água?
Teresa Fernandes – A Águas do Algarve serve cerca de 450 mil habitantes em época baixa e perto de um milhão e meio em época alta, no pico do verão. A população praticamente triplica, sendo que estamos totalmente preparados para este aumento tão significativo, quer em termos de meios humanos, quer técnicos e de infraestruturas. O abastecimento de água potável (em alta) com elevada qualidade e em quantidade suficiente à região algarvia durante todo o ano, é um dos compromissos da nossa empresa.

J.A. – E a seca severa que está a assolar o sul do país pode afetar de alguma forma esse compromisso?
T.F. – Considerando a franca pluviosidade que ocorreu no ano de 2011 e inclusivamente de 2010, e que as barragens algarvias onde é efetuada a captação de água estão com níveis de água interessantes, nomeadamente os sistemas Odeleite/Beliche a sotavento e Odelouca/Funcho a barlavento, para além da existência de várias captações subterrâneas da empresa, neste momento a Águas do Algarve está em condições de garantir o fornecimento de água à população e aos milhares de turistas que anualmente nos visitam durante o ano corrente, 2013 e também em 2014, mesmo na eventualidade remota destes anos serem de seca extrema.

J.A. – A que se deve essa fiabilidade do abastecimento de água no Algarve, quando há dez anos tudo era bem diferente?
T.F. – Deve-se sobretudo à conclusão da barragem de Odelouca. Não podemos deixar de referir que esta barragem (origem da qual começámos este ano – 1 de junho – a captar água) é uma infraestrutura fundamental no garante do abastecimento público de água de todo o barlavento algarvio, com a possibilidade, se necessário, de fornecer água ao sotavento através das duas estações elevatórias reversíveis existentes no concelho de Loulé. É a única barragem cuja água é exclusivamente para abastecimento público.

J.A. – A Águas do Algarve defende que a água da torneira é “uma água mais completa a todos os níveis” em comparação com a água engarrafada. Porquê?
T.F. – O nosso corpo é composto por cerca de 70 por cento de água, pelo que, e de acordo com os profissionais da área da saúde, devemos ingerir diariamente cerca de dois litros de água, caso contrário e ao longo dos anos, poderemos vir a sofrer graves problemas de saúde devido à falta de ingestão deste precioso líquido. Os benefícios para a saúde, resultantes do consumo de água, estão diretamente relacionados com a sua composição físicoquímica. Assim, podemos afirmar que o consumo de água da torneira é benéfico para a saúde, uma vez que a água distribuída pela Águas do Algarve para consumo humano é quimicamente equilibrada, ou seja, possui na sua composição minerais e oligoelementos nas concentrações adequadas e essenciais para os processos bioquímicos de todos os seres vivos. Beber água é importante, e recomenda-se, mas beber bem e com qualidade exige-se, e a Águas do Algarve dá-nos essa resposta.

J.A. – Algumas pessoas ainda têm medo de beber a água que sai das torneiras. O que lhes diria?
T.F. – Em Portugal, as câmaras municipais, os serviços municipalizados de águas e saneamento facultam relatórios baseados em estudos laboratoriais sobre o controlo da qualidade da água para consumo humano e que estão disponíveis para consulta. A qualidade da água para consumo humano é também evidenciada através do Relatório Anual do Setor de Águas e Resíduos em Portugal, disponível na internet. Em complemento, no Algarve, a Águas do Algarve disponibiliza informação online através do seu site, com os resultados obtidos às análises efetuadas à água em todos os concelhos da região. Aqui o consumidor pode verificar e confirmar a elevada qualidade da água que é fornecida pela nossa empresa. Acresce dizer que, no Algarve, o controlo da qualidade da água da torneira é efetuado de acordo com os mais exigentes critérios da legislação internacional e nacional, as orientações da Organização Mundial da Saúde, as especificações da certificação em segurança alimentar (ISO 22000) e certificação do produto Água para Consumo Humano. Para além do programa de análises para cumprimento da legislação, existem também a decorrer planos operacionais de análises que garantem a qualidade da água tratada e fornecida pela Águas do Algarve aos municípios do Algarve.

J.A. – Ainda assim, em termos nacionais, é no Algarve e Alentejo que mais pessoas usam água de garrafa. No entanto, é no norte do país, e não no sul, que a qualidade é mais baixa. Pode explicar este fenómeno?
T.F. – Trata-se de um hábito alicerçado em costumes antigos, de há mais de 17 anos, quando a água da torneira algarvia tinha muito má qualidade, quando a água de consumo era proveniente de captações subterrâneas. De acordo com um estudo efetuado pela ERSAR, os consumidores consomem muito mais água da torneira do que engarrafada, em média 150 litros por dia, ou seja, 4,5 m3 por mês. No entanto, se falarmos apenas na parcela que é para consumo direto, há a ideia de um consumo superior de água engarrafada do que água da torneira. Este fator está associado a um estilo de vida, aliado à grande oferta e variedade de marcas de água engarrafada disponíveis no mercado. No Algarve, devido ao passado recente, isto é, até ao ano 2000, existe ainda alguma resistência e desconfiança relativamente à qualidade da água da torneira, e que há já alguns anos foram ultrapassadas. Efetivamente, e como já foi aqui referido, a água da torneira no Algarve é de total confiança. A população dispõe de uma água de elevadíssima qualidade, a qual obteve inclusivamente a certificação do produto água para consumo humano. Por estes motivos, a desconfiança com a qualidade da água fornecida na rede pública é infundada, e o consumo de água engarrafada desnecessária, pelo que estamos certos de que esta tendência será brevemente invertida.

J.A. – Ou seja, a água que sai das torneiras no Algarve é completamente segura e até melhor que a engarrafada?
T.F. – No Algarve, a percentagem de cumprimento dos requisitos desta qualidade é de praticamente 99.9 por cento nas mais de 100.000 amostras realizadas ao longo do ano, o que nos permite afirmar que o consumo da água da torneira é seguro, não pondo em risco a saúde humana. Na verdade, temos demonstrado ativamente em diversas iniciativas que são desenvolvidas na região que a água da torneira é uma água de confiança. Por todos estes motivos, a eventual desconfiança ou insatisfação que possa existir face à qualidade da água da torneira são totalmente infundadas.

J.A. – Em tempos de crise e austeridade, a questão do preço pode ter um grande peso nessa decisão. Faz ideia da poupança que se pode obter ao optar por água da torneira em vez da engarrafada?
T.F. – O fator preço da água leva-nos a uma questão muito sensível e que deve ser matéria de ponderação por parte de todos os consumidores. Provada que está a elevada qualidade da água que sai nas nossas torneiras, para além da sua facilidade de acesso e quantidades disponíveis, o seu consumo é e deve ser praticado com consciência e racionalidade. O consumidor, melhor que ninguém, pode e deve fazer uma breve análise aos preços praticados pelo consumo da água, seja aquela que provem diretamente das torneiras, seja aquela que eventualmente adquire nas superfícies comerciais. Para além do custo financeiro, é importante que o consumidor ganhe consciência que ao consumir água da torneira está a evitar a produção de embalagens de plástico e/ou vidro e a consequente produção de toneladas de CO2 e de resíduos, contribuindo para a proteção ambiental, a qual não tem preço. Considerando os milhares de análises que comprovam a qualidade e segurança da água que chega a casa dos consumidores, deixamos o convite ao seu consumo. Ao beber água da torneira, estará a adotar uma atitude responsável poupando no presente, garantindo um futuro sustentável.

J.A. – Apesar dos enormes progressos verificados no sistema de abastecimento no Algarve, a água continua a ser considerada um bem precioso. Mas ainda persistem alguns casos de desperdícios…
T.F. – Que a água é um bem precioso todos sabem, mas que é esgotável muitos o ignoram. Esta ignorância fomenta o desperdício. Quando as pessoas desperdiçam água, negam não só o seu valor, mas também expressam uma falta de visão do futuro, uma vez que que não estão a conservar o que vamos necessitar para viver. O desperdício é ainda mais grave se for considerado que a água não é um bem ilimitado e a sua perda pode levar-nos a situações críticas de escassez. Devemos então lutar contra a escassez e eliminar as situações de desperdício. A água para consumo humano é utilizada essencialmente na alimentação, banhos pessoais e na limpeza da casa e dos utensílios ou roupas, na lavagem de automóveis e na irrigação de jardins. O consumo médio da água é mais ou menos de 120 litros diários por pessoa. Mas esta quantidade depende das condições de nossa casa, da instituição ou instalações onde trabalhamos e das atividades que se realizam nelas. Estima-se que a distribuição do consumo médio diário de água, por pessoa, é aproximadamente a seguinte: 36% na descarga do autoclismo; 31% na higiene corporal; 14% na lavagem da roupa; 8% na rega de jardins, lavagem de automóveis, limpeza de casa, e outras; 7% na lavagem de utensílios de cozinha, e 4% para beber e alimentação.

J.A. – Pode dar alguns conselhos/ideias para evitar o desperdício, bem como algumas medidas de poupança ou de uso eficiente da água no nosso dia a dia?
T.F. – Em vez disso, gostaríamos de deixar um apelo à pro-atividade de cada um de nós, na identificação e eliminação do desperdício: desenvolva a consciência das crianças sobre a necessidade de conservar e preservar a água; conheça e siga todas as regras de conservação e utilização eficiente da água que possam estar em vigor na sua área de residência; encoraje os seus colegas a promover a conservação e uso eficiente da água também no local de trabalho; conserve a água porque é a coisa certa a fazer. Não desperdice água porque outra pessoa vai pagar a conta, por exemplo, quando se hospeda num hotel; informe as autoridades competentes se verificar desperdício, por exemplo na rega de espaços públicos; promova a reutilização da água; tente fazer uma coisa de cada vez resultando em mais economia de água. Não se preocupe se as economias são mínimas, porque cada gota conta. E cada pessoa faz a diferença.

J.A. – Que iniciativas/campanhas desenvolve a Águas do Algarve para incentivar uma mudança de hábitos e promover a água da torneira?
T.F. – A educação ambiental é fundamental na sociedade atual, com a crise ambiental, o aquecimento global, o aumento da população mundial e outros fatores intrínsecos a uma sociedade contemporânea. Queremos educar para a sustentabilidade através da mudança de atitudes, formar cidadãos conscientes sobre os problemas do meio ambiente e muito objetivamente acerca da água para consumo humano, criando perspetivas e novas dinâmicas para uma mudança de paradigma global, através de consumidores conscientes e proativos. O desenvolvimento de variadas ações de educação ambiental, e promoção do consumo de água da torneira, são uma constante ao longo de todo o ano.

J.A. – A qualidade da água foi um problema durante muitos anos no Algarve. Mas nos últimos 10 a 15 anos têm sido feitos progressos assinaláveis. Pode destacar os maiores avanços na região?
T.F. – Com a criação e implementação dos sistemas multimunicipais, e quando se fala no setor do abastecimento público, podemos afirmar que atualmente a qualidade do serviço é de excelência tendo-se já atingido os 100 por cento desde 2009. Relativamente ao saneamento, o Algarve passou de um grau de cumprimento de 36 por cento em 2005, para os atuais 95 por cento, isto sem que o investimento nesta área esteja todo concluído. A nível do abastecimento, e como é do conhecimento geral, quer a quantidade, quer a qualidade da água até ao ano 2000 era deficiente, sendo que à presente data, após a realização de vários investimentos dos quais se destaca a construção da barragem de Odelouca, o Sistema Multimunicipal de Abastecimento de Água do Algarve apresenta-se robusto, assegurando a total fiabilidade deste sistema. As empresas Águas do Sotavento Algarvio e Águas do Barlavento Algarvio, que deram origem à Águas do Algarve, apenas abasteciam o litoral algarvio ficando excluído o barrocal e a serra. A partir do ano 2004/5 foram efetuados investimentos volumosos não só no sentido de abastecer toda a região mas também de aumentar significativamente a fiabilidade do sistema multimunicipal, o qual à presente data se apresenta robusto e garante a continuidade do serviço com mais elevada qualidade. A nível do saneamento básico, nos últimos seis anos houve uma evolução fantástica a qual tem tido reflexos imediatos quer na qualidade das águas balneares quer dos rios e ribeiras da região, possibilitando haver um gradual aumento das bandeiras azuis nas praias algarvias, sendo hoje várias as praias do Algarve consideradas como das melhores do mundo.

J.A. – Foi um investimento muito avultado…?
T.F. – O investimento total previsto da Águas do Algarve no âmbito dos Sistemas Multimunicipais de Abastecimento de Água e de Saneamento do Algarve, em alta, é da ordem dos 626 milhões de euros. O Algarve tem atualmente uma cobertura de rede de abastecimento de água, em alta, em cerca de 98 por cento, e no saneamento essa cobertura é atualmente de 96 pontos percentuais. Temos consciência que o investimento da Águas do Algarve na região é um dos maiores efetuados nos últimos 30 anos no Algarve, o qual permitiu uma melhoria significativa da qualidade de vida das populações, quer residentes quer flutuantes, destacando-se os meses de verão, onde a população praticamente triplica. A principal atividade económica da região, o turismo, em tudo tem vindo a beneficiar com a atividade da Águas do Algarve, quer pela garantia de quantidade e qualidade de água distribuída, quer pela qualidade das águas balneares das nossas praias, da Ria Formosa e dos rios e ribeiras da região.

J.A. – Apesar de tudo, existem sempre os perigos de contaminação e perspetivas de escassez, correto?
T.F. – O problema da escassez da água doce é uma situação muito grave, abrangendo já vários países, e poucos são aqueles que estão atentos a esta crise. Segundo previsões das Nações Unidas e da Organização Mundial de Saúde, todos os modelos de alterações climáticas apontam problemas enormes para o sul da Europa, sendo Portugal e Espanha os dois países europeus mais afetados pelo aquecimento global já em 2025. A tendência para Portugal é a de que os períodos de seca sejam cada vez mais frequentes e mais prolongados. Há uma necessidade urgente de se duplicarem os esforços para aumentar a poupança de água, com risco de milhões de pessoas sofrerem com falta deste recurso já em poucos anos. Esta crise deve-se a vários fatores, tais como o crescimento da população, aumento das atividades económicas e desperdícios domésticos por mau uso deste líquido, tratado na maioria das vezes como ilimitado. A melhor forma de combater a falta de água, naturalmente, é equilibrar a oferta existente à procura, e para tal, é preciso por em prática certas medidas, como proteger-se as fontes de água já existentes, recuperar-se aquelas que estão contaminadas e principalmente combater-se a cultura doméstica do desperdício. Atos simples, como desligar a torneira enquanto se escova os dentes ou tomamos banho, não lavar louça em água corrente, eliminar as fugas das torneiras… São pequenos gestos que, quando somados, representam uma enorme economia da água disponível do planeta. Esperar que sejam sempre os outros a agir é uma falsa questão. Cada um de nós pode, e deve, contribuir fazendo a sua parte, na melhor utilização deste recurso único e indispensável para a sobrevivência. Quanto aos riscos de contaminação, a Águas do Algarve desde 2008 que, ao obter a Certificação do Produto Água e a Certificação ISO22000, criou um grupo de trabalho denominado ESA (Equipa de Segurança da Água) o qual antecipa toda e quaisquer implicações que possam ocorrer a montante a nível das ribeiras e albufeiras de que alguma forma possam contaminar as nossas origens de água.

Nuno Couto/Jornal do Algarve

  • JoseRodriguesFaro

    Tudo muito certo, mas essa garantia é a montante, na origem (ETA) e não na chegada por não se poder garantir a qualidade da rede, desde os depósitos às canalizações dos edifícios que acumulam bactérias entre outros elementos que podem ser nocivos e dar, no mínimo, mau sabor à água. Por mera precaução não se perde nada em ter um simples e económico filtro.